Monday, February 23, 2009

As razões das exceções

Por que só aquela é vermelha?

Como já escrevi alguns posts atrás, passei férias em Salvador. Logo, não sobrou dinheiro para eu fazer algo neste carnaval. O carnaval de 2009 está sendo aqui, em Porto Alegre, em frente ao computador, ouvindo música no YouTube, lendo alguns parágrafos de A jangada de pedra, de Saramago, escrevendo no blog, pensando, pensando, pensando... E tem sido muito bom, sabe? É um retiro espiritual forçado.

Minha irmã disse que, se fosse homem e fosse apresentado a mim, me acharia a mulher mais desinteressante do mundo por estar passando o carnaval sozinha em casa (a Sandra e seus preconceitos...) Pois eu discordo dela. Discordo dela totalmente. Se a maioria esmagadora das pessoas faz alguma coisa no carnaval, o que haverá de especial com a minoria que não faz nada? As exceções, me interessam muito elas!

Pois só vim a pensar nisso hoje, alguns minutos atrás. Está chovendo em Porto Alegre, de modo que não pude levar Diná, minha companheira de todas as horas que, aliás, completou um ano ontem, para passear. Por isso, levei-a agora à noite ao pequeno jardim do meu prédio, só para ela se divertir um pouquinho - pelo menos ela! -, e pude ver que, no bar em frente, havia duas pessoas conversando. Duas pessoas conversando no bar que fica em frente ao meu prédio! Numa segunda de carnaval chuvosa em Porto Alegre! Único! Insólito! Se eu tivesse levado meu celular, teria tirado foto. Se eu não tivesse pudor nenhum, deixaria a Diná desvendando os mistérios daquele jardim pelos quais só os cães se interessam em desvendar e atravessaria a rua e pediria uma cerveja e me sentaria àquela mesa e perguntaria com real curiosidade pela resposta:

_ Por que vocês estão aqui?

Ah, essa ideia de que se intrometer na vida alheia é falta de educação impede diálogos incríveis! Evita encontros inesquecíveis!

Subindo de volta ao meu apartamento, o inusitado continuou. A janela do meu quarto dá para os fundos do meu prédio, aliás dá para os fundos dos outros prédios também. Telhados, janelas, garagens, varais e peças de roupas que caíram deles e que ninguém fez questão de resgatar. Pois ao passar pela janela do meu quarto, ouvi vozes. Ouvi vozes e não vi luz brilhando de nenhuma janela. Na minha vizinhança, pensei, alguém conversa no escuro. No carnaval, milhões de pessoas bebem, beijam, tiram o pé do chão e batem na palma da mão. Mas quantas conversam no escuro?

Que vontade de ir até lá e perguntar:

_ Por que vocês estão aqui? E por que estão no escuro?

Mas eu nem sei o número do apartamento. Por que não gritar? Poderia gritar, eles ouviriam, pois eu não os estou ouvindo conversar? Mas eu perturbaria a ordem se o fizesse. Ordem do quê, criatura? Não tem ninguém no bairro inteiro a não ser aquelas duas pessoas conversando no bar e essas outras duas no escuro! Ah, mas mesmo assim... Vocês nunca tiveram a impressão de que o próprio silêncio se incomoda com o barulho? Vocês nunca se flagraram cochichando com alguém de madrugada até que esse alguém perguntasse porque vocês estão falando baixo, já que não tinha ninguém dormindo mesmo, e daí vocês começaram a falar alto e sentiram um desconforto e tiveram a impressão de que estavam violando alguma coisa, mas não sabiam o quê? Pois era o próprio silêncio. Era a ordem das coisas. Leiam a crônica Insônia, de Luis Fernando Verissimo, e vocês vão me entender. Aliás, vocês vão se entender – que é pra isso que existem literatura e gênios como o Verissimo. Diz ele nessa crônica que à noite sua casa não é sua. Ele tem razão. À noite, nosso bairro também não é nosso, nem a cidade. Mesmo e principalmente quando ela está vazia numa segunda de carnaval.

Então, como sou tão respeitosa em relação ao silêncio e à ordem das coisas, eu não grito. Eu só imagino. Imagino o que poderia acontecer se eu saísse pela cidade a visitar todos que ficaram em Porto Alegre no carnaval e lhes indagaria o porquê de estarem aqui. O que não viria como resposta, hein?

Um senhor, ouvindo Coltrane e com um DVD de Um miterioso assassinato em Manhattan nas mãos, me diria que simplesmente detesta carnaval. Diria que houve outrora tempos bons de carnaval, tempos em que a trilha sonora ainda era composta de bons sambas e em que até a malandragem era inocente, mas que nada mais disso existia e que, por isso, ele preferia ignorar a data. Então nós ficaríamos até o amanhecer da quarta-feira de cinzas assistindo a todos os filmes de Woody Allen. Que boas risadas não renderiam!

Uma viúva diria que todos os filhos foram passar o carnaval na praia e a deixaram só. E eu perguntaria quais seriam as razões de os filhos deixarem-na só, e ela contaria tudo desde o início, desde que conhecera o pai deles, e de como tinha sido sua reação ao descobrir sua primeira gravidez. E eu perguntaria se na segunda e na terceira tinha sido a mesma coisa, e que expectativas ela tinha criado para cada um deles, e se ela não teria negligenciado de alguma forma um ou outro ou todos. Que boa reflexão renderia!

E um homem me diria que está com o pai hospitalizado e que é filho único. E eu perguntaria se o pai cuidava da saúde, e ele diria “Que nada! Enxugava uma garrafa de cana por dia!”. E então ele contaria que na juventude seu pai saía a fazer serenatas para diversas mulheres, e como a sua mãe sofrera por causa disso. “Mas a sua mãe não sabia que ele fazia isso antes de casarem?”, eu perguntaria, e ele diria “Claro que sabia, pois foi ouvindo a que ele fez para ela que ela se apaixonou, só que ela pensou que depois dela, ele pararia”, e eu retrucaria “E por que ele não parou?”, e ele responderia “Porque o que ele gostava não era tanto da musa, mas da serenata em si”. E assim ele continuaria descrevendo todas as mulheres para quem seu pai havia cantado e, às vezes, até arriscaria alguns versos das canções de que se lembrasse. Que boas histórias não renderiam!

E uma moça, com olhar triste e violão em punho, me diria que não está em clima de carnaval porque está sofrendo por amor. Diria que foi a mulher da transição. “O que é a mulher da transição?”, eu perguntaria, e ela explicaria “É a mulher com quem um homem fica no período que compreende o fim de um amor e o início de outro”. “E por que tu te sujeitaste a este papel?!”, eu questionaria, e ela diria que não sabia que era este o papel que ele lhe havia reservado. “E que desculpa ele te deu quando começou a amar essa outra?!”, eu perguntaria, e ela diria “Nenhuma, ele não disse nada, ele simplesmente sumiu”. E então ela começaria a dedilhar o violão e cantaríamos juntas “Trama em segredo teus planos, parte sem dizer adeus...” Que bons sambas não renderiam!

São muito interessantes, sim, as pessoas que não fazem nada nas datas em que todo o mundo faz alguma – e, geralmente, a mesma – coisa.

Brilhante legítimo - mas não único

Elis: depois dela não apareceu mais ninguém?

Vou mexer em vespeiro, mas vamos lá.

Um de meus passatempos favoritos é ver vídeos no YouTube. Eu simplesmente amo música, amo ver os artistas que admiro cantando/tocando e amo ver as versões que os anônimos deste mundo dão às canções. Em vários desses vídeos, deixo comentários. E em vários deles, leio os comentários alheios e, não raro, me deparo com o velho clichê: “nunca vai haver uma cantora como Elis”.

Concordo. Em parte.

Em primeiro lugar, porque obviamente não podemos prever o futuro. Podemos dizer no máximo que, desde que Elis morreu, nunca houve, até os dias de hoje, uma cantora como Elis. E ainda assim, só no Brasil. Quem ousará discutir que Amy Winehouse não está no patamar de Elis? Timbre magnífico, talento indiscutível, interpretações carregadas de emoção e repertório nota 10. Alguém vai contrariar?

Amy Winehouse: só quem ama o passado é que não vê

Em segundo lugar, o que eu acho é que até hoje nunca houve uma cantora que pudesse cantar As curvas da estrada de Santos como Elis. Ou Atrás da porta. Ou Como nossos pais. Ou Me deixas louca. Estas são músicas desesperadamente cheias de sentimento que, sim, exigem uma intérprete que lhes imprima emoção, e isso, de fato, no Brasil, nunca ninguém fez como Elis. Talvez Maria Bethânia o faça, mas, ainda assim, tento imaginar Grito de alerta e Olhos nos olhos na voz de Elis, e acredito que ela faria miséria dessas canções – da mesma forma que teria feito miséria de algumas composições de Cazuza, se tivesse vivido a tempo de conhecê-lo.

Muitas vezes, há músicas que surgem numa versão qualquer e, depois, carregadas pela emoção de uma outra intérprete, ficam muito melhores. É o caso de Will you still love me tomorrow?, que surgiu com as Shirelles na década de 60, ganhou diversas versões nas décadas subsequentes (Carole King fez uma, procurem no YouTube), mas, pelo menos para mim, tornou-se definitiva com Amy Winehouse. Amy parece cantá-la com o coração sangrando, e aí está seu mérito.

Will you still love me tomorrow? com The Shirelles


Will you still love me tomorrow? com Amy Winehouse


Em suma, o que faz de Elis e de Amy cantoras únicas é a intensidade de suas interpretações.

Mas, aí vem a minha tese: NEM TODA CANÇÃO É INTENSA. Nem toda canção canta dores lancinantes e paixões rasgadas e desesperadoras. Há as que cantam a indiferença, o tédio, a covardia, e essas pedem vozes amenas. Vamos falar de Pessoa, música a que me refiro no meu último post. O sujeito da canção rejeitou alguém especial pelo medo de amar. Covardia. Cansaço. Descrença. Conseguem imaginar versão melhor do que a de Marina? Conseguem imaginar Elis fazendo uma versão muito melhor do que a dela?

E ainda há as canções que cantam nada. Ou quase nada. O barquinho, de Roberto Menescal e Roberto Bôscoli, por exemplo. É uma canção sobre a calma de um entardecer de verão. Ouçam a versão de Elis e comparem com a de Maysa. A de Maysa é muito melhor, e ainda assim, a voz de Maysa também é muito dramática para esta letra. Prefiro a versão de Nara Leão, suave... como um entardecer de verão.

O barquinho com Elis Regina


O barquinho com Maysa


O barquinho com Nara Leão

Sunday, February 22, 2009

A pessoa mais linda do mundo

A música Pessoa, do compositor Dalto e interpretada por Marina Lima, vai ao encontro do que escrevi no post Mulheres em extinção? Às vezes, só de olhar, não reconhecemos a pessoa mais linda do mundo. Porque o olhar só enxerga a saia curta e o decote generoso, para usar os mesmos exemplos que usei no já mencionado post - e poderia ser um exemplo da contrapartida, pois estou falando das mulheres vítimas de estereótipos porque a questão me surgiu assim através daquela comunidade do Orkut, mas é claro que as mulheres também rotulam os homens através de estreitas frestas e os rejeitam de acordo com elas.

Escutem a música, ela está entre as minhas preferidas da Marina. Aliás, as músicas que são especiais para mim, assim como as pessoas que o são também, eu sempre lembro como eu conheci. Pessoa é de um álbum de 1993 da Marina, mas eu só fui ouvi-la pela primeira vez em fevereiro de 1999, num comercial da GNT que anunciava a programação especial que o canal exibiria durante a semana da mulher. Eu estava almoçando, cabeça baixa, olhando para o prato, quando ouvi aquela breve introdução seguida daqueles versos na voz da Marina. Ergui imediatamente a cabeça para ver do que se tratava. "Que música linda!", pensei. Agora ouçam e pensem vocês também. E não cansem nunca de acreditar!


Mulheres em extinção?

Esses dias eu estava percorrendo a esmo algumas comunidades do Orkut quando me deparei com uma de nome Mulheres em extinção, que conta com cerca de 66 mil membros. Cliquei no ícone para ler a descrição - o que seria uma mulher em extinção? - e descobri que a comunidade se refere a mulheres "finas, inteligentes, educadas, que se dão valor e que não saem fazendo barracos e falando palavrões". Então chamou-me a atenção o tópico mais recente do fórum de discussões: um rapaz criticava a suposta hipocrisia dos membros daquela comunidade, pois não pode haver 66 mil mulheres que não falam palavrões e que não transam com o primeiro bonitinho que aparece. "Se for investigar o passado de cada uma delas, não se salva uma", dizia o autor do tópico.

O que se seguiu à colocação deste rapaz foi um, a meu ver, festival de opiniões estreitas.

Todos os participantes masculinos da discussão mostraram-se indignados com o comportamento feminino atual - e não lhes tiro totalmente a razão. A questão é que eles e - olha lá o perigo das generalizações, mas vamos lá - a maioria dos homens analisa a questão de uma perspectiva, na minha opinião, distorcida. Não se trata de promiscuidade gratuita ou de - como muitos acreditam, e eu às vezes custo a acreditar que eles realmente acreditam nisso - interesse pelas condições materiais do rapaz. Pelo menos, não na maioria dos casos.

O que eu penso acontecer é que as mulheres, incentivadas pelos primórdios do feminismo, pensam-se inferiores aos homens, e por isso, querem competir com eles. Homens adoram conquistar e colecionar mulheres - e, homens, acreditem, isso incomoda muito as mulheres. Então elas fazem o mesmo para lhes dar o troco. E conseguem, pois como a tal discussão comprova, os homens estão incomodados com isso. Eu sei que em homens isso pode ser natural, mas isso não deve servir de desculpa para tal comportamento, pois nem tudo o que é natural é bom: o câncer é natural, assim como os terremotos, o infanticídio dos filhotes defeituosos - e o interesse feminino pelos machos que lhe dêem mais segurança, seja ela de que natureza for! ; )

Eu realmente penso ser uma forçação de barra da parte das mulheres fingirem realização ao seguir o modelo masculino de fazer sexo. Cheira-me a um modo de compensação, uma vingança. É mais ou menos como se uma menina visse um menino brincando alegremente com seus carrinhos e, largando súbita e raivosamente suas bonecas, dissesse: “Ah, é? Você gosta de brincar com carrinhos? Pois eu também gosto!”, e pegaria os carrinhos e brincaria com voracidade, fingindo contentamento, e diria “Olha só, como eu também gosto de brincar com carrinhos!” Mas na verdade ela não gosta.

Outro fato que chamou a minha atenção no debate em questão é a maneira absolutamente precipitada com que os homens julgam as mulheres. Uma saia curta e um decote generoso já basta para que a moça mereça rótulos nada abonadores. E o pior é que, uma vez que rotula aquela cristã, o cara não consegue enxergar mais nada na moça a não ser o estereótipo que ele mesmo criou para ela - eis o perigo dos estereótipos! -e nem leva em consideração que, mesmo que ele esteja certo em seu preconceito, a moça pode vir a mudar.

Em suma, no tópico nenhum homem questionou o porquê de estas mulheres se comportarem assim, muito menos levantou a hipótese de que elas podem ser promíscuas, sim, mas não apenas isso. Elas podem ser promíscuas e carinhosas, promíscuas e batalhadoras, promíscuas e competentes, promíscuas e aspirantes a um relacionamento que as façam não querer mais ser promíscuas. E o mesmo vale para os homens ditos cafajestes. A questão é que como quase ninguém está disposto a ter o trabalho de mudar, pensam que todas as demais pessoas também não podem. Mas todas podem, se quiserem e se tiverem um bom motivo para isso. E qualquer um de nós pode ser esse motivo.

Saturday, February 21, 2009

Salve Salvador!



Estive em Salvador nestas férias e adorei! Além de ter revisto minha querida irmã Eliz, seu namorido, Fabiano, e sua simpática cachorrinha Hiena "Pimpom", pude conhecer esta apaixonante cidade.

Na primeira tarde, fomos, por recomendação do taxista que levou minha outra irmã e eu do aeroporto à casa de Eliz, à praia de Piatã. Bad move! Piatã é suja e lotada! De bom, só mesmo um belo pôr-do-sol, que por sinal, lá acontece por volta das 17h30 ou 18h - a Bahia não adota o horário de verão. Lá amanhece supercedo, o que nos forçou a levantar todos os dias mais ou menos às 7h ou 7h30- em plenas férias! - para aproveitarmos bem a praia.


Pôr-do-sol em Piatã

No dia seguinte, a Eliz nos levou ao paraíso: Stella Maris. De onde ela mora, nas redondezas das avenidas Luiz Viana Filho e Jorge Amado, dá uns 40 minutos de ônibus tipo lotação (R$ 3,00 a passagem). Praia belíssima, ótimas piscinas naturais, coqueiros, poucos turistas e bons restaurantes – a moqueca de mariscada estava excelente, o peixe vermelho, nada de mais. Ponto positivo: os preços não eram exorbitantes, como se espera de lugares turísticos, principalmente em praias isoladas como a praia em questão. Pagamos lá por boa comida o mesmo que se paga em Porto Alegre por comida da mesma qualidade.


Eliz e eu em Stella Maris

Nunca tinha tomado banho em uma piscina natural, e adorei. Não corremos o risco de sermos sugados pelo mar – há ondas, mas elas não quebram, não repuxam e nem cometem a indiscrição de tirar nossos biquínis –, ficamos mergulhados até o pescoço e, o que é melhor, dá para enxergar não só nossos pés, mas os peixinhos coloridos que nadam em torno deles.


Eu, Eliz e Sandra em uma piscina natural de Stella Maris

Outro paraíso é a Praia do Forte, que fica a uma hora e meia de Salvador.


Praia do Forte

A viagem para lá foi uma aventura. Se vocês tiveram oportunidade de assistir à novela Tieta, transmitida pela Globo no horário das 8 em 1989 e reprisada no Vale a pena a ver de novo em 1994, devem lembrar da marineti, dirigida pelo personagem de Elias Gleiser. Pois é, foi numa mais ou menos assim que nós fomos à Praia do Forte. Havia um motorista e um outro carinha a cuja função não sei dar um nome específico, mas ele praticamente, a cada parada de ônibus, tentava convencer as pessoas a entrarem no veículo. Ah, e claro, ele também era o repsonsável por segurar a porta direita da “marineti” – senão, cairia.

A Praia do Forte é como uma villa supercharmosa, com restaurantes e butiques com aquele tipo de elegância descontraída, sabem? A propósito, comi um bobó de camarão inesquecível lá, mas esqueci o nome do restaurante – hehe –, só lembro que foi num restaurante italiano – sim, há comida para os “malucos” que não gostam de frutos do mar. Tem turistas de todo o mundo lá, mas também tem moradores locais, pois eu vi até uma escola municipal de ensino fundamental entre uma loja e outra – deve ser para os filhos das pessoas que trabalham lá.

No começo, eu odiei a praia em si, porque na hora de tomar banho, não queríamos entrar numa pequena baía onde havia alguns barcos, por medo de que a água estivesse meio suja em função do óleo das embarcações. Então tentamos as piscinas naturais, mas havia muitas pedras, de modo que os pés doíam. Por fim, acabamos nos rendendo à baía... e foi maravilhoso, o melhor banho que já tomei na minha vida. Água parada, morna e limpa. Nem sinal de óleo. Uma delícia.


Eu na Praia do Forte

É na Praia do Forte que fica o Projeto Tamar – aquele das tartarugas –, muito bem organizado, interessante e bonito. É um excelente programa para fazer com crianças – para quem as tem.


Projeto Tamar

Sobre a cidade de Salvador, propriamente dita, eu gostei dos bairros Pelourinho, Rio Vermelho, Pituba – fui a um restaurante chamado Côco Bahia neste bairro, muito bom, ótimo atendimento, ótimo crepe, ótima decoração, ótimo tudo – e mais um bairro elegante cujo nome não lembro, só lembro que o taxista disse que era ali que o ACM morava. Mas de modo geral, Salvador é muito feia e tem um trânsito horroroso – muito pior do que o de Porto Alegre, não tem nem comparação, na hora do rush fizemos em uma hora e meia um percurso que havíamos feito em dez minutos às 11h da noite no dia anterior! Outra coisa de que não gostei foi o fato de ninguém jamais ter troco – dos taxistas aos cobradores de ônibus. A passagem de ônibus comum lá custa R$ 2,20 – R$ 0,10 a menos do que aqui em POA –, e mesmo quando demos uma nota de R$ 10,00 para pagar para três pessoas, o cara não tinha troco! Ele não tinha R$ 3,40!!!

Mas a maior decepção de todas foi o show do Olodum. Paguei R$ 40,00 esperando ver uns trinta percussionistas tocando ritmos africanos que me fizessem eu me sentir como se tivesse recebendo um santo, e o que vi não foi nada além de um show de axé music, no maior estilo “tira o pé do chão, joga a mãozinha pra cima e bate na palma da mão!” Horrível.

Mas de modo geral, adorei a viagem e já disse à minha irmã que ano que vem estarei lá novamente!


Projeto Tamar - Praia do Forte

It's too late

Olhem que lindo o que eu achei, um cover só em cordas da música It's too late, clássico da Carole King dos anos 70.

Sunday, February 08, 2009

É bom, mas é ruim e vice-versa

No ano passado eu tive uma aluna chamada Carolina. Como tinha muita facilidade com a Língua Inglesa, ela era sempre uma das primeiras a concluir as atividades, e, por causa disso, enquanto esperávamos que os outros ficassem prontos para correção, costumávamos bater papo. Um dia, Carolina comentou que fazia ballet. Disse que devia à dança sua disciplina e que adorava dançar. Mas, ela também contou que havia dias em que não aguentava mais fazer ballet, e que por várias vezes prometeu a si mesma, sem sucesso, abandonar este compromisso.

Na hora em que ela relatou tudo isso, não atinei em lhe dizer, mas a verdade é que ela, nos seus tenros 16 ou 17 anos, estava aprendendo, da maneira mais saudável possível – graças a Deus! –, que tudo na vida tem um preço. Mais do que isso, tudo tem valor – os preços são objetivos, os valores, não. Estes variam. Determinadas coisas podem ter valores diferentes para pessoas diferentes e até mesmo para a mesma pessoa em momentos diferentes.

Vejam bem, não se trata da velha questão de que tudo tem um lado bom e um lado ruim. Isto é muito simples. A questão aqui é mais complexa: trata-se de a mesma coisa ser ruim e boa ao mesmo tempo. Para Carolina, fazer ballet é bom, mas é ruim. É ruim ter de interromper o que se está fazendo para preparar a mochila com sapatilhas e malhas, pegar um ônibus, chegar à escola, fazer aquecimento, dançar, levar xingão da professora rígida e voltar para casa toda dolorida. Mas, se Carolina conseguisse cumprir sua promessa de abandonar o ballet, do que ela mais sentiria falta? Das colegas? Não, ela poderia encontrar as colegas em um bar ou no cinema. Das músicas? Ela poderia baixá-las todas da Internet. De calçar as sapatilhas? Que as calce em casa e dê rodopios na ponta dos pés em plena sala de estar, qual é o problema? Não, Carolina sentiria falta de calçar as sapatilhas, de ouvir aquelas músicas e de encontrar aquelas colegas naquele contexto. Em outras palavras, ela sentiria falta de ter de interromper o que está fazendo para preparar a mochila com sapatilhas e malhas, pegar um ônibus, chegar à escola, fazer aquecimento, dançar, levar xingão da professora rígida e voltar para casa toda dolorida.

Eis uma dificuldade da vida, presente em diversos âmbitos e faixas etárias: gostar do que nos incomoda – ou sermos incomodados por aquilo de que gostamos, whatever, a ordem dos fatores não altera o problema – ou será que altera?

Se altera ou não, não sei, o que sei é que faz toda a diferença termos consciência desta ambivalência. Quantos não abandonam sua profissão, seu emprego, seu casamento – ou até mesmo a condição de solteiro – porque pensam que não são felizes, e só pensam isso porque, ao contrário da jovem Carolina, ainda não se deram conta de que felicidade é isso aí mesmo... ela vem com uma dose de insatisfação. Há um conto de Clarice Lispector – se não me engano, chama-se Amor – em que a protagonista tem nojo dos filhos. E como não ter?

Se eu não abandonei minha profissão até hoje, é porque as férias dos professores é mais longa do que a de outros profissionais, o que me permite perceber minha saudade de planejar aulas, corrigir pilhas de provas, ir a conselhos de classe... e conversar com alunos interessantes como Carolina.

; )

Saturday, October 25, 2008

A pessoa certa?

Para quem não sabe, eu canto – ou finjo que – em uma banda. Recentemente, decidimos tocar duas canções de Marina Lima, sobre quem falei em um post aqui mesmo no dia 16 de janeiro. Uma delas é Virgem, que não tenho em CD. Por isso fui procurá-la no YouTube – encontrei, mas com péssima qualidade de som. Mal conhecia esta música (ela não está em nenhuma das duas coletâneas que eu tenho da cantora) e achei a letra – além da própria música – muito interessante. Ela faz uma série de referências a elementos do Rio de Janeiro para dizer que eles não dão a mínima para uma pessoa com quem o sujeito teve uma relação amorosa. Os primeiros versos são de matar: “As coisas não precisam de você/quem disse que eu tinha que precisar?”

É uma bela reflexão sobre a tendência de algumas pessoas de se apaixonarem e praticamente cismarem que aquela é “a pessoa certa”, e que ninguém mais no mundo vai ser tão o seu número como ela. Bobagem! Tempos atrás um amigo me disse que às vezes podemos estar ao lado da pessoa certa e não nos darmos conta. Eu concordo não só com isso, mas também com o contrário: às vezes podemos jurar que aquela pessoa é a certa, e ela ser um grande equívoco! (O problema é, depois de se desvencilhar desta paixão, cair em outra semelhante, pois, como diz a música, “o Farol da Ilha procura agora outros olhos... e armadilhas!”. É, a tendência é repetir, e sobre isso eu também já falei aqui no blog.)

Mas o maior equívoco de todos é o de acreditar que a tal pessoa certa existe, assim, já na condição de “certa”. Conheço pessoas – homens e mulheres – de 50 anos que dizem nunca terem casado e tido filhos não porque não quiseram fazê-lo, mas porque “não aconteceu” ou não encontraram “a pessoa certa”. Românticas todas elas! Não existem pessoas feitas sob medida pra gente – e nem nós somos “a pessoa certa” para alguém! Todas precisam de alguns ajustes, e para qualquer uma delas nós também temos que nos ajustar. Pode acontecer de entre duas pessoas haver menos arestas para aparar. Mas também pode ser que uma destas pessoas não esteja disposta a fazer estes pequenos acertos, ao passo que outras, com muitas e muito maiores diferenças, podem topar superá-las. Quem é a pessoa mais “certa” neste caso?

E quer me parecer que é justamente o processo de “ajuste” que dá graça à relação. Pense nos contos de fada – e nas comédias românticas – que sempre terminam no “e foram felizes para sempre...” Passamos horas entretidos com a série de obstáculos que o príncipe tem de superar para conquistar a princesa, e a história acaba exatamente quando o casal consegue ficar junto e ser feliz. Mas, afinal, o que é ser feliz para sempre? O que aconteceu com este casal depois da última página? Por que o autor não conta o resto? Por que a felicidade não é digna de ser contada?

Ora, porque esta felicidade ou é enfadonha ou é fajuta. Ou o príncipe e a princesa não precisaram superar nenhum outro obstáculo para se manterem juntos – história que não teria graça nenhuma, o que põe em dúvida se eles foram mesmo felizes para sempre – ou eles tiveram, sim, que passar por uma série de dificuldades, o que contraria o ideal de felicidade que consiste em ser tudo divino e maravilhoso sem esforço nenhum. Se houvesse, vá lá, Cinderela – Parte II, a gente teria ficado sabendo que o príncipe não era tão encantado, e que a Cinderela nunca deixou de levar consigo um pouquinho de gata borralheira.

O que faz um conto de fadas – e uma relação – ser interessante são os desafios. É a transposição destes que emocionam. E quando eles forem instransponíveis, paciência. Nunca esqueçamos que as coisas não precisam “daquela pessoa” – e tampouco de nós.

Sunday, August 24, 2008

ALL YOU NEED IS LOVE!

Diná: love is all you need!

Já que falei de paixão no post anterior, venho agora falar de amor. Todos nós já assistimos a uma porção de filmes sobre o amor, já lemos poemas e histórias de amor, já nos encantamos com canções como Eu sei que vou te amar e outras tantas. Mas o que de melhor eu li sobre o amor, algo que repercutiu de fato na minha vida, foi, pasmem, uma reportagem da revista Vida Simples.

A reportagem é fantástica em vários aspectos. Em primeiro lugar, ela diferencia amor de paixão. Em segundo, joga um balde de água fria em muita gente que pensa que já amou ou que pensa que amor está dentro de si, adormecido, esperando a pessoa certa para ser despertado. Não, segundo os especialistas referidos pela reportagem, o amor é fruto de prática e exercício, esforço e paciência. E sua recompensa não é o amor recíproco do objeto do amor, mas o próprio amor, um sentimento que nos transborda de felicidade. Para finalizar, a revista recomenda que comecemos o treino do amor por algo pequeno, como cuidar de uma planta ou animalzinho. Ah, já ia esquecendo, a reportagem diz que o amor só surge de uma rotina em que cuidamos de algo!

Li esta reportagem em 2005, e ela nunca me saiu da cabeça. Concluí, ao lê-la, que eu nunca tinha amado e que estava disposta a fazer os tais exercícios. Como na época, por razões que não vem ao caso explicar, eu não podia ter um animal, resolvi comprar algumas flores. Coitadas, morreram todas. Mas, professora que sou, sabia que não se aprende uma coisa de uma hora para outra e que o erro faz parte do processo de aprendizagem. Eu precisava, na verdade, de um desafio maior, algo que fizesse reivindicações.

Este ano, diante da disponibilidade de ter um animal, voltei a pensar no assunto. Considerei a hipótese de adotar um gato, porque eles são mais higiênicos, independentes e silenciosos. Mas aí pensei melhor e, quer saber?, decidi adotar um cachorro justamente porque cães dão mais trabalho e exigem maior envolvimento. Quem quer aprender a amar não pode ter medo de se envolver – ou pelo menos, tem de aprender a dominar este medo.

No dia 5 de abril deste ano, eu peguei um ônibus e fui até a Vila Cruzeiro buscar uma cachorrinha que eu tinha visto no site www.bichoderua.com.br. Ela ainda não tinha 45 dias de vida, tinha pulgas, carrapatos, vermes e diarréia, e pesava 600 gramas. Louca de medo da aventura em que eu estava me metendo, disse aos donos da ninhada “Vou ficar com ela” no tom mais hesitante possível. Não lembro de ter dito outra coisa na minha vida com menos convicção. Peguei outro ônibus e voltei para minha casa carregando-a dentro de uma caixa de sapatos. Ela era minúscula, e ao caminhar, parecia ser de brinquedo. “Arranjei uma sarna para me coçar!”, eu pensava.

Bom, esta sarna já teve desidratação e teve de ser internada por uma noite para tomar soro. Preço da brincadeira: R$ 175,00, entre internação e remédios. Depois disso ela ainda teve seborréia seca e tosse. Mais consultas veterinárias, mais remédios. Ela consome cerca de R$ 60,00 por mês em ração. Já destruiu uma cadeira, um CD, vários rolos de papel higiênico, algumas canetas, duas havaianas. Eu já vi, na boca dela, nada menos do que meus óculos, meu celular e um parquê que ela arrancou do piso. Já cheguei na cozinha e a vi confortavelmente deitadinha sobre um pano de prato. Mas tudo isso é comédia. O que me irrita mesmo é a quantidade de pêlo que ela solta. Seus pêlos estão em toda parte.

Mas agora não sei mais viver sem ela. Não posso devolvê-la ou abandoná-la. Já a amo. O que ela faz para compensar suas estripulias? Nada! Simplesmente me acostumei a ter uma presença constante em casa, alguém que faz barulho, que tira as coisas do lugar, e que às vezes – bem às vezes – senta-se quietinha próxima aos meus pés, ou põe as patinhas nas minhas pernas, enquanto escrevo algo no computador, pedindo colo. Alguém que fica pertinho da minha cama resmungando porque eu não deixo ela dormir comigo.

Na noite em que ela teve tosse, minha irmã me convidou para sair com ela. Disse que não podia por causa da Diná. Eu não conseguiria me divertir na noite sabendo que ela estaria em casa tossindo como um ganso. Minha irmã se irritou e não compreendeu. Mas eu compreendi todos os que já “sacrificaram” programas de prazer pelos seus cães, filhos ou quaisquer outros objetos de amor. Quando a gente ama, não é custoso deixar de sair. Custoso é o contrário, é ter de sair, quanto tudo o que queremos é estar perto de quem a gente ama e que está passando por um momento difícil. Passei aquela noite em casa, e todas as vezes em que ela acordou com seu acesso de tosse, parecendo uma buzina, me acordei também e fiquei do lado dela, que tossia com as orelhinhas baixas, dirigindo, de vez em quando, um olhar tristinho para mim.

Pronto: o exercício recomendado pela revista havia dado certo! E posso dizer: realmente o amor é uma sensação indescritível que nos faz transbordar de felicidade! E não acredito que seja passível de ser experimentado via animais, filhos e maridos (!) dos outros. “Amar” o afilhado ou o cavalo que você cria no haras distante 400 Km da tua casa não é amar. Amar exige convivência e incomodação. Não me venha falar que você ama o cachorro da sua namorada: não é no seu tapete que ele faz cocô e não é pela sua casa que ele espalha o lixo do banheiro; não me venha falar que ama o filho da sua melhor amiga: não está deixando de ir à academia para ficar mais tempo com ele e para poder pagar seu colégio, e também não é você que a coordenadora pedagógica da escola dele chama quando ele tem baixas notas ou mau comportamento; não me venha falar que ama seu amante: não precisa tolerar a mãe dele e você não está nem aí se ele resolveu torrar o dinheiro que ele juntou para pagar a parte dele na entrada do apartamento. Só se ama quando tem uma boa parte do seu na reta!

Encerro este post com o endereço eletrônico da referida reportagem (leiam, vale a pena!) e com a música All you need is love, dos Beatles, que dispensa comentários!

http://vidasimples.abril.com.br/edicoes/024/grandes_temas/conteudo_237951.shtml?pagina=0

Saturday, August 23, 2008

Paixão: s.f. do grego pathos, sofrimento





Existe no Orkut uma comunidade chamada Caetano, o que é Vaca profana?, cujo objetivo é discutir as letras mais esdrúxulas da MPB. Vaca profana ganhou o privilégio de aparecer no nome da comunidade por ser mesmo a mais enigmática, mas creio que a segunda canção mais comentada pelos participantes seja Açaí, de Djavan. Para mim, entretanto, não só Açaí é muito clara, como eu concordo plenamente com ela.

Em determinada altura da música, o sujeito lista uma série de características da paixão: puro afã, místico clã de sereia, castelo de areia, ira de tubarão, ilusão, zum de besouro... Concordo com tudo. Afã é desejo, sereias são seres mitológicos, castelo de areia é efêmero, a ira do tubarão é violenta, o zum do besouro é perturbador. E paixão é isso tudo mesmo: uma perturbadora reunião de elementos fantasiosos, frutos de nosso desejo, que dura até o momento em que percebemos o quão patéticos a paixão nos deixou. Em tempo: “paixão” e “patéticos” têm a mesma raiz etimológica, pathos, que significa doença ou sofrimento. Nada mais correto.

Em janeiro deste ano, comentei com um grupo de amigos que não tinha tido boas experiências com a paixão, e que não queria voltar a me apaixonar novamente. Mordi minha língua, me apaixonei, e, curada da enfermidade (ou não, não sei), volto a afirmar: não quero me apaixonar novamente.

Nunca consegui corresponder os homens que se apaixonaram por mim (e olha que eu tentei!) – e nunca consegui fazer com que os homens por quem fui apaixonada me correspondessem (e olha que eu tentei mais ainda!). E entendo o porquê – e por isso lhes dou razão. Pessoas apaixonadas não são atraentes. E digo isso porque, como já disse, já estive na condição de objeto da paixão e não consegui me sentir atraída – a não ser fisicamente, mas isso não conta – por tais homens. Quando estamos apaixonados, nos submetemos a situações quase humilhantes, aceitamos certas coisas em que o natural era que parássemos tudo e disséssemos “Péra lá um pouquinho, o que você pensa que eu sou?” Mas não dizemos. Não é o caso de sufocar a revolta. É pior do que isso: é o caso de não se revoltar, porque quando estamos apaixonados, achamos que tudo o que a pessoa faz é lindo, ou, no mínimo, natural. E ao nos comportarmos assim, estamos afastando a pessoa ao invés de atraí-la.

Amy Winehouse diz em uma música lindíssima que o amor é um jogo para perder. Discordo. O amor sequer é um jogo. A paixão, sim, é um jogo para perder, um jogo em que aquele que se sabe apaixonante adota, ainda que sem percebê-lo, uma postura de quem já está com o jogo ganho.

Não me venham falar que a graça está em tentar manter a pessoa apaixonada: em geral, assim como não foi preciso fazer nada para que a pessoa se apaixonasse, não é preciso fazer nada para que a pessoa mantenha tal estado. Basta você manter a já mencionada postura – o que não é nem um pouco difícil. Conheço casos que já duram anos – sem mentira! – em que o cara – ou a mulher – faz e acontece, e a mulher – ou o cara – continua de quatro por ele.

Isso me remete a uma conversa que tive com um aluno. Perguntou-me ele, certo dia, qual é a minha relação com a língua inglesa. Vendo que eu não entendia a pergunta, ele explicou que, contrariando as expectativas que se tem em relação a músicos, em certos momentos, ele não suporta ouvir música. Então o compreendi perfeitamente e respondi que tenho uma ótima relação com a língua inglesa porque nunca fui apaixonada pelo idioma. Tive, sim, uma paixão avassaladora pela literatura, que nasceu na infância, tão logo fui alfabetizada, e que me levou a ler vorazmente uma infinidade de livros e a fazer quatro anos de faculdade de Letras e dois de mestrado em Teoria da Literatura, e a lecionar por mais dois anos e meio a disciplina de Literatura Brasileira no Ensino Médio, até que este casamento se esgotasse e eu pedisse divórcio. Cansei de ler por obrigação e de obrigar meus alunos adolescentes a lerem. Para mim, leitura é como sexo: é ótimo, mas quem quer fazer à força? De onde eu concluí que não posso trabalhar com aquilo pelo que sou apaixonada, apenas com aquilo de que eu gosto.

E tudo isso me faz lembrar de um outro aluno que, nos seus tenros 17 anos, preencheu o campo "paixões" do seu perfil do Orkut com a singela frase "Fuja de todas elas!"

Sabedoria, de fato, não tem idade.

Saturday, August 09, 2008

Por gosto ninguém vai lá!

Ouvi falar que, perguntado sobre qual é o sentido da vida, Freud respondeu “Amor e trabalho”. Também já ouvi uma música do Ismael Silva – em parceria com mais dois compositores cuja identidade a preguiça me impede de pesquisar na Internet – que diz que “o trabalho não é bom/ninguém pode duvidar/Oi, trabalho só obrigado/por gosto ninguém vai lá”. E agora, quem tem razão, o pai da psicanálise ou o mestre do samba?

Vamos contextualizar: quando disse “trabalho”, talvez Freud não estivesse se referindo ao trabalho tal como é comumente visto no dia-a-dia, mas como qualquer atividade laboriosa cujo sentido é a intenção de proporcionar uma vida melhor para si e para a sua família. Assim, tanto faz se o cara exerce a medicina, profissão nobre e pensante, ou a cata de lixo, trabalho mecânico que não possibilita, diretamente, ao trabalhador evoluir intelectual ou espiritualmente. O que importa é que este médico e este lixeiro tenham claro para si o porquê fazem o que fazem – nem que este porquê seja o investimento em um filho para que ele não precise ser também lixeiro. A perspectiva de ver seu filho traçando uma história melhor do que a sua pode ser a grande motivação para este trabalhador. Da mesma forma, a dondoca que prepara jantares para os colegas do marido executivo também pode tirar daí uma grande realização, pois está, de certa forma, participando de negócios cujos lucros vão beneficiar sua família. Nem todo trabalho é formal e tem carteira assinada, e suspeito que era a esta forma generalizada de trabalho que Freud se referia.

E quando Ismael Silva usou a palavra “trabalho”, a que será que ele se referia? Bom, se ele teve as mesmas origens da maioria dos sambistas – um morro carioca, em que sabemos, a renda é pouca –, ele provavelmente estava se referindo aos trabalhos braçais e mal remunerados que as pessoas deste contexto faziam. Que realização tem uma pessoa que trabalha duro o dia inteiro para ganhar apenas o suficiente para sobreviver, ou seja, que não tem perspectivas de um dia mudar de vida? Uma coisa é ser motoboy para pagar a faculdade sabendo que, daqui quatro ou seis anos, estará trabalhando em outra área com um salário melhor. Outra coisa é ser motoboy com a certeza de que será motoboy para o resto a vida – se a empresa não demiti-lo – e que provavelmente seu filho também será.

Desse modo, concordo com Ismael. E penso que, ultimamente, o trabalho deixou de ser uma fonte de realização para muitas pessoas. Vide o número de pessoas largando suas carreiras para serem servidoras públicas. Há quem diga que estas pessoas são as que fracassaram no mercado, ou que são acomodadas. Discordo. Eu acredito que muitas dessas pessoas apenas se deram conta de que mesmo as profissões universitárias, com o tempo, se tornam mecânicas. Como tudo tem girado em torno do dinheiro, os médicos, que antes queriam salvar vidas, agora querem atender o maior número possível de pacientes por hora, os advogados, que queriam fazer justiça, querem pegar as causas mais lucrativas, e os professores, que queriam ensinar, querem o maior número de horas-aula. Evidentemente, quando se trabalha assim, a qualidade do serviço prestado cai, e a satisfação de trabalhar se esvai, porque percebemos que não estamos fazendo o melhor que sabemos fazer e não atingimos nossos objetivos satisfatoriamente. Outra crítica que ouço ao trabalho público é a falta de desafios. De fato, não deve ser mesmo desafiador. Mas o trabalho não deve ser a única fonte de desafios. Tem tanta coisa aí nos desafiando. Quer desafio maior do que construir uma família hoje em dia?

Frente a isso, acho que o negócio é trabalhar em algo tolerável (porque fazer algo que se detesta é horrível!) e bem remunerado para se tirar realização de verdade de outras atividades, como um hobby, um curso ou até um trabalho voluntário, um desses a que se vai por gosto.

Em tempo: a palavra "trabalho" tem a mesma raiz etimológica de "tortura".

Saturday, June 21, 2008

Sobre as restrições do Estado e da vida

Acabo de ler na Zero Hora – tenho comprado com alguma freqüência, já que minha cachorrinha precisa de um banheiro, hehehe – sobre a nova lei de tolerância zero em relação a motoristas que dirigem sob o efeito do álcool. Segundo esta lei, não poderá haver um mísero resquício de álcool no sangue do condutor do veículo, ou ele pagará multa de R$ 955,00 e perderá a carteira de habilitação por um ano.

Isso me remeteu a um fato que vivi na última quinta-feira: estava atravessando a Oswaldo Aranha quando, no canteiro que divide a avenida, deparei-me com uma grade de proteção. Pensei: “Ué, e agora, como vou atravessar?”. Olhei para os lados e vi que mais adiante havia uma abertura que desembocava exatamente na faixa de segurança. Fui até lá, atravessei em segurança enquanto os carros esperavam o sinal abrir e cheguei à calçada ilesa e refletindo sobre o assunto.

Achei um saco não poder atravessar a avenida do ponto em que me encontrava, mas sei que o Estado pôs aquela grade ali para me proteger. Se não houvesse grade, eu e mais uma porção de gente atravessaríamos fora da faixa, confiantes na própria capacidade de avaliar velocidade, tempo e distância para atravessarmos sem nos machucar – e sem amassar o carro e atrasar o compromisso de alguém. Ora, nem eu nem um monte de gente somos retardados a ponto de não sabermos fazer tal avaliação. Mas acidentes acontecem mesmo, e é melhor evitá-los.

A questão é: por que o Estado tem de tomar este tipo de medida para que o cidadão não se estrepe todo? Seria melhor confiar: “não é necessário colocar grade de proteção, pois o cidadão sabe que é melhor para si atravessar na faixa de pedestres”. Acontece que o cidadão não pensa assim (ou pensa, mas não age), do mesmo modo como não pensa que é mais seguro para si e para os outros dirigir sóbrio. E tome restrições do Estado! Do que resulta uma pergunta tostines na minha cabeça: o cidadão é infantil por que o Estado o trata como criança ou o Estado trata o cidadão como criança porque ele é infantil?

Outra questão é: por que o Estado não educa ao invés de usar paliativos como barras e leis? Não seria melhor conscientizar as pessoas do que é mais seguro? Seria, mas campanhas de conscientização não funcionam – e custam dinheiro. Além do mais, educação é um projeto de resultados a longo prazo, uma lavoura de cuja colheita, muitas vezes, quem semeou não desfruta. Portanto, até que as campanhas começassem a fazer efeito – se fizessem –, muita gente ainda morreria na contramão atrapalhando o tráfego.

Uma terceira questão é: se o pedestre não tem amor pela sua vida e não se cuida, por que o Estado não deixa que ele morra de uma vez? Bom, primeiro, porque pode ser que ele não morra. Pode ser que ele só se quebre todo, e será um hospital público que vai arcar com seu tratamento. Sai mais barato pôr grade de proteção. Sem contar que o pedestre deve ter família – uma família que não lhe deu subsídios para que construísse amor próprio, é verdade, mas ainda assim, uma família que sentirá sua falta. Segundo, porque morrendo o pedestre ou não, o pobre do motorista que vinha dirigindo direitinho provavelmente vai se incomodar com isso. Eis a complexidade da vida em sociedade: quem quer se ferrar, não se ferra sozinho. A pessoa pode levar consigo quem não tinha nada a ver com a história.

E eis o ponto em que eu queria chegar: reconheço e louvo as boas intenções do Estado, mas considero sua luta inglória, porque no conflito indivíduo versus coletividade, vence o indivíduo. De nada adiantam campanhas contra a direção embriagada e o uso de drogas ou pelo sexo seguro. Estas campanhas apontam os malefícios destas práticas perigosas sem levar em conta que o problema é que as pessoas que as praticam querem mesmo é se prejudicar. Ou porque são oriundas de lares desestruturados, ou porque não têm auto-estima nenhuma, sei lá! A única coisa que eu sei é que se esse povo quisesse se preservar, não estaria dirigindo alcoolizado, transando sem camisinha ou se drogando. Apontar em campanhas os prejuízos que isso causa às demais pessoas, então, é piada! Se o sujeito não se importa consigo próprio, acham mesmo que ele vai se importar se a droga que ele consome financia a violência ou se ele vai matar alguém na estrada? Come on!

O fato é que essas pessoas estão desorientadas. Faltou-lhes quem lhes desse um rumo na vida do mesmo modo como o Estado me deu um rumo para atravessar a rua com segurança. Nem todos os limites que (a família, o chefe, o governo e a própria vida) nos impõem devem ser vistos como obstáculos para nos impedir de chegar aonde queremos. Às vezes eles são justamente um meio para que cheguemos bem ao outro lado. Acontece que para alguns essa boa intenção não ficou clara - o que resultou em rebeldia -, e para outros, não houve intenção nem limite - o que resultou em irresponsabilidade. Deixaram que eles atravessassem a rua onde bem entendessem, e eles estão aí, vivendo numa eterna roleta russa. Estes vivem dando oportunidades para que o acaso lhes apresente a morte, e para quem vive assim, a vida alheia não é importante, assim como também não são R$ 955,00 e um ano sem habilitação.

Thursday, May 01, 2008

O cárcere do amor

No livro A odisséia, de Homero, em que se narra o retorno de Ulisses a Ítaca, há uma passagem em que a deusa Circe adverte o herói para o perigo das Sereias. “Se alguém, por ignorância, se avizinha e escuta a voz das sereias, adeus regresso! Não tornará a ver a esposa e os filhos inocentes sentados alegres a seu lado, porque com seu canto melodioso, elas o fascinam, sentadas na campina, em meio a montões de ossos de corpos em decomposição, cobertos de peles amarfanhadas”. Por isso, Ulisses ordena que seus tripulantes tampem seus ouvidos com cera. Mas ele, ah, ele não quer perder a oportunidade de conhecer a beleza do canto, e desse modo, decide manter seus ouvidos bem abertos. Para não ceder aos encantos das sereias, no entanto, ele se prende no mastro da galé. Assim, enquanto seus homens continuam a remar, ele escuta a melodia fatalmente fascinante, mas mantém-se vivo para chegar a sua casa e encontrar a esposa Penélope e o filho Telêmaco.

Quando li A odisséia, aos 19 anos, este trecho – e aposto que muitos outros – passou batido. Não que eu não tenha entendido a metáfora. Eu sequer percebi que havia ali uma metáfora. Hoje, leio a passagem com outros olhos – e com outro coração, principalmente, pois é para ele que a literatura e todas as artes são feitas.

Ulisses prendeu-se ao mastro por amor à família. Provavelmente o canto das sereias é mais atraente que a família, do contrário, ele não precisaria ter se prevenido com amarras. Mas de tal prevenção também se deduz que deve haver algo de muito bom nesta família. Suponho que seja a vida, de modo geral – ele sabia que as sereias levam à morte – e o amor, de modo específico.

Amar é quase uma dor

Já li em livros de filosofia que, por ser uma via pela qual o sujeito descentra-se de si mesmo para doar-se a outro, o amor é libertador. Bobagem! O amor é uma prisão – e o é justamente porque envolve outro. Viver centrado no próprio umbigo é que é ser livre. Não é preciso conviver com o medo da perda do objeto do amor – e não é necessário dar satisfações de onde, quando, como e com quem se vai – e se vem! A solidão não exige horário para voltar para casa.

O amor exige – isso e muito mais. O amor demanda cuidados – e aí está o dilema. Cuidar quando estamos a fim chega a ser prazeroso. Nem sempre, contudo, estamos a fim. Às vezes, temos mais vontade de ouvir o canto das sereias. Mas se não aceitarmos este fardo de cuidar mesmo quando estamos sem vontade de fazê-lo, perderemos o que amamos – e não queremos isso. E haja corda para nos amarrar!

Cuidar do que se ama dá trabalho. Perder o que se ama por desleixo dá tristeza. Djavan está certo: amar é quase uma dor.


Como é bonito, meu Deus, o canto desta sereia!

Ainda tenho outra interpretação para as cordas de Ulisses. Se ele se amarrou para poder manter-se vivo, e se ele quis manter-se vivo para encontrar Penélope e Telêmaco, as cordas podem ser uma metáfora dos próprios Penélope e Telêmaco. Foram eles que amarraram Ulisses à vida. Se é possível afirmar que o amor tem uma função, eu arriscaria dizer que esta função é mesmo a manutenção da vida. O mundo é cheio de tentações – as sereias estão por toda parte. Se não tivermos algo que nos prenda, não resistiremos. É por amor que trabalhamos e diminuímos o sal, a gordura e o cigarro. Eis porque considero A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera, um livro genial: a leveza não é, de fato, uma posição sustentável. É preciso um peso, é preciso uma cruz que nos curve e nos deixe mais próximos do chão. É preciso algumas cordas, uma Penélope e/ou um Telêmaco que nos dê motivo para nos amarrar ao mastro quando as sereias cantarem.

Parece-me, entretanto, que cada vez mais pessoas têm preferido entregar-se às sereias. Penso e não consigo chegar a uma conclusão do porquê. Estará sendo difícil encontrar alguém por quem valha a pena nos amarrar? Estarão estas pessoas frágeis demais para carregar o peso de um relacionamento? Ou será que elas não aprenderam a fazer o que não gostam e, por isso, não sabem conviver com aquele dilema de ter de cuidar mesmo quando não se está com vontade? Suspeito que a resposta correta seja: todas as alternativas anteriores – e mais algumas outras que a inexperiência me impede de perceber.

Tuesday, February 19, 2008

Você vai ver um dia em que fria você vai entrar...

Fui assistir ao filme Sangue Negro no último domingo. Confirmei minha tese de que o máximo permitido antes de ver um filme é ler sua sinopse, mas nunca as críticas. Entrei absolutamente inocente na sala de cinema quando fui assistir a O show de Truman e Pequena Miss Sunshine, e em ambas as vezes saí de alma lavada. Com Sangue negro foi diferente. Li várias críticas, e todas me pintaram um épico inesquecível. Decepcionei-me. O filme não chegou a me comover. Mas devo admitir que ele tem, sim, suas qualidades.

Em primeiro lugar, a trilha sonora original é, de fato, muito original! E muito bem usada. Há seqüências longas com peças musicais insistentes – e que têm toda razão de sê-lo.

Em segundo lugar, o enredo suscita uma reflexão que para mim não é nova, mas é sempre bom reforçá-la: a de que patrimônios gigantescos ruem depressa quando não são construídos sobre bases sólidas. Daniel Plainview, interpretado por Daniel Day-Lewis, é um mineiro que aprende a perfurar o solo e a encontrar petróleo como ninguém. Portanto, enriquece. Mas Plainview é um homem cuja sensibilidade é inversamente proporcional ao seu tino para negócios, e se ele consegue tirar fortuna do solo, não sabe fazer o mesmo com pessoas – em quem, afirma, não consegue encontrar nada de bom. Ora, como dizia Kant, não vemos as coisas como elas são, mas como nós somos. Plainview não enxerga nada de bom nas pessoas porque não tem nada de bom dentro de si mesmo. Ou melhor, não acredita que possa ter algo bom dentro de si – para mim, a descrença no outro, nos termos em que falo aqui, é sempre o reflexo de uma descrença em si –, e por isso prefere escavar a terra ao invés de escavar a si mesmo. De qualquer forma, eu pergunto: se não consegue conviver com outras pessoas, para que construir um patrimônio assombroso? Para jogar boliche na sua pista particular - sozinho?

Isso me lembra um amigo da minha irmã, Luciano, que semanas atrás comentava sua viagem a New York. Dizia ele em tom melancólico: “Eu visitava os museus e via telas incríveis, mas meus amigos não estavam lá para que eu discutisse a respeito delas...” É claro que, tendo a oportunidade de ir a New York, eu iria de qualquer maneira – sozinha ou acompanhada. Mas sei exatamente o que Luciano quis dizer. Há momentos na vida que não fazem sentido se não forem compartilhados.

A chegada de Plainview ao topo foi totalmente solitária. Como é a de muitos Plainviews por aí, homens e mulheres que priorizaram a vida profissional em detrimento da vida pessoal na crença de que as duas são obstáculos mútuos (quando, me parece, é justamente o oposto) e resolvem realizar-se primeiro numa para depois – crentes de que são donos de seu próprio destino, totalmente descrentes das surpresas da vida e dos caprichos da morte – na outra. Como diz Dalai Lama, vivem como se nunca fossem morrer e depois morrem como se nunca tivessem vivido.

O sujeito descobre a cura da AIDS, ou vence um campeonato mundial de tênis, ou ganha o Nobel da Literatura... Enfim, chega lá. Chega aonde sempre quis. Mas quando chega em casa, bebe sozinho a garrafa de champagne. Tem lá fora uma legião em quem desperta admiração, e aqui dentro ninguém em quem despertar orgulho.

Thursday, February 07, 2008

Sobre a fé a hierarquia social

Esta é daquele livro sobre sociobiologia que eu comentei alguns posts atrás – e sobre o qual falarei em muitos outros posts futuros:

“Algumas coisas virtualmente não existem: ateus em ninhos de metralhadoras e relações meio a meio”.

Chupem esta manga!!!

Simplesmente fantástica a citação! Concordo em gênero, número e grau!

Nunca pude presenciar – ainda bem! – uma situação que confirmasse minha hipótese, mas tenho minhas dúvidas de que um ateu mantenha-se implacável na sua descrença ao receber um diagnóstico de tumor maligno no cérebro de seu filhinho de 3 anos. Quem consegue confiar só em médicos, tão humanos – e falíveis – quanto qualquer um de nós? Na hora do aperto, acredito que todos se recusem a aceitar que estamos mesmo entregues ao nosso próprio destino. Nunca rezo, não fiz catequese, nem primeira comunhão, e nem lembro quando foi a última vez que entrei em uma igreja. Não fui sequer à missa de minha formatura de graduação. Mas em horas drásticas, aquela em que a gente costuma pensar “tô f*!”, clamei infantilmente a um ser superior que interviesse em meu favor. Ele nem sempre atendeu. Talvez porque achasse que eu precisava passar mesmo por aquilo. Talvez porque sadicamente estava a fim de rir às custas da minha desgraça. Talvez – hipótese mais provável – porque não exista mesmo. Mesmo assim, em situações posteriores, voltei a recorrer a ele, e ainda recorrerei outras tantas, o que me faz concluir que a fé não serve para conseguir sair da tempestade, mas para tolerá-la. Gil tem razão, a fé não costuma falhar. Se o objetivo dela é este mesmo de que suspeito, então ela não falha. Ela realmente nos dá forças incomensuráveis. E não posso deixar de dizer que, se lembro deste ser superior para pedir, também lembro para agradecer. Todas as noites – sem exceção! – quando eu chego da night em casa, assim que coloco os pés no corredor do meu prédio e fecho atrás de mim o portão, digo, não sei bem para quem, se para Deus, ou para o universo, sei lá, “Obrigada por ter chegado sã e salva mais uma vez!”

E sobre as relações meio a meio?

O autor completa: “Entre animais sociais, a falta de hierarquia definida produz situações muito instáveis. Ponha juntos diversos macacos (ou cães ou galinhas) pela primeira vez e voarão pêlos (ou penas). Continuarão a voar até decidirem quem é chefe e quem não é. Uma vez estabelecida a hierarquia, porém, reina a paz, interrompida apenas por pequenas brigas quando alguém tenta subir na escada social. Qualquer tentativa de mudar de posição tem probabilidade de causar rompimento.”

Com seres humanos acontece o mesmo. Sei que não somos apenas animais, e que poderíamos utilizar a razão de que tanto nos vangloriamos para viver numa sociedade igualitária. Mas justamente por causa de toda a sucessão de fracassos neste sentido que colecionamos ao longo de nossa história, começo a desconfiar de que há, sim, razão para vivermos em hierarquia. Não existe a exploração do homem pelo homem, para utilizar uma expressão de Marx, apenas porque isso é da nossa natureza. Ela existe porque talvez – quem poderá ter certeza no que diz respeito a isso? – seja mesmo necessária e inevitável. Mudanças são possíveis, mas só na superfície. Como a Revolução Francesa deu demonstrações ostensivas, o poder pode mudar de mãos, mas a tirania continua – e continua a haver quem se submeta a ela, ou porque não tem escolha, ou porque uma das alternativas exija sacrifícios pelos quais não estão dispostos a pagar.

A única coisa que defendo nesta história é que todos tenham o direito de querer e de lutar para subir na escada social. Parece cinismo da minha parte – e talvez seja mesmo – mas todo explorado deve ter o direito de se tornar um explorador, se assim o quiser e fizer por merecê-lo (será que existe um limbo entre estas duas classes, será que existem os que não são explorados, nem exploradores, os apenas bonzinhos? Deixemos a hipocrisia de lado: sinceramente, creio que não). E acredito que todos podem operar essa mudança em suas vidas. Só que para isso é preciso uma série de fatores: trabalho duro, senso de oportunidade, competência, boas relações sociais (olha aí elas de novo!), sorte. E, é claro, fé, que ela não costuma falhar!

; )

Saturday, February 02, 2008

Porto Alegre é demais!

Porto Alegre é muito grande, e tão pequena!


Ah, escrevendo sobre Porto Alegre, não pude me furtar de voltar aqui e prestar uma homenagem a ela. Eu poderia esperar o dia 26 de março – dia de seu aniversário (impressionante como me dou bem com arianos!) – para fazê-lo, mas não me agüentei e cá estou, rendida a ela!

No post imediatamente anterior a este, eu mencionei um bar, o bar a que eu fui ontem. Pois então, ele é o único bar rock n’ roll de Florianópolis – o pessoal aqui curte demais reggae e MPB. Entrando lá, pensei com todo o bairrismo a que eu jamais tinha me permitido até então: “Que legal! Parece os bares de Porto Alegre!” Vim a saber, mais tarde, que os dois donos do dito cujo são porto-alegrenses.

Sentados à mesa, bebendo cerveja, conversamos sobre diversos assuntos, até que, não sei por quê, minha irmã e o amigo dela começaram a tal conversa sobre Porto Alegre que desencadeou a minha saudade de que falo aqui embaixo (ah, detalhe: houve um requinte de crueldade, no bar tocou a música Anoiteceu em Porto Alegre!). E falando nisso, ele – o amigo – disse “Eu adoro morar em Floripa, mas como eu gosto daquela p* daquela cidade!” E isso me fez lembrar uma frase deste mesmo cara, só que dita alguns anos atrás: “Porto Alegre é uma cadela!”

É mesmo! Ela nos dá um monte de motivos para não gostar dela: trânsito, violência, caos em dias de chuva, agenda pobre de shows internacionais e temperaturas de verão que só não são mais altas que o custo de vida... Sem contar os problemas que só os oriundos do interior – como eu! – identificam. Por exemplo, grande parcela dos porto-alegrenses se preocupam demais demais demais com imagem! Gastam o que têm e o que não têm para sustentar uma aparência para seus amigos que também vivem de aparência. O charmosíssimo bairro Moinhos de Vento, então, tem flora exuberante – com suas ruas arborizadas – e uma fauna bizarríssima! 99% das mulheres são incrivelmente iguais: cabelos artificialmente louros, pele artificialmente alaranjada e sorrisos e gestos artificialmente premeditados. Um dia, lendo uma revista de moda, chamou-me a atenção o comentário de duas estilistas de São Paulo sobre o estilo das gaúchas: “Elas têm muito bom gosto, mas se vestem todas iguais!” Cada vez que vou a algum bar deste bairro (porque ao contrário de muitas pessoas, a mim importa aqueles me acompanham, e não os habitués dos lugares), sinto-me exótica com meus cabelos crespos e escuros!

Outra coisa que estranhei assim que cheguei a Porto Alegre foi a maneira de os homens “azararem” as mulheres, quase sempre tentando impressionar com aquilo que cada um acha que tem de melhor: sobrenome, posição social, emprego promissor, músculos, erudição. No interior não é assim: todo o mundo se conhece – no mínimo, conhece alguém que te conhece – e, portanto, não precisa falar – ou não adianta mentir – sobre sua família, profissão ou endereço, porque todo o mundo sabe – ou muito em breve vai poder confirmar – ou desmentir – as informações. Então o cara simplesmente conversa sobre seus interesses em relação à moça. Simples, não? Felizmente, nem todos que moram em Porto Alegre são porto-alegrenses, e nem todos os porto-alegrenses são assim.

Mas Porto Alegre é uma cadela, e mesmo com tudo isso, a gente não consegue não gostar dela! O atendimento em estabelecimentos comerciais de toda ordem é excelente, os serviços são bem – e rapidamente – prestados, o sistema de transporte coletivo é ótimo, as corridas de táxi são baratas e as ruas são lindas e arborizadas. Há locadoras de vídeo em que se pode encontrar de tudo – e onde os atendentes entendem de cinema –, cafés aconchegantes e parques lindos, como o da Redenção, que é pertinho da minha casa e tem uma feira bem legal nos sábados de manhã! Tem um pôr-do-sol maravilhoso e lugares como o Mercado Público. E tem o que eu chamo de “gente como a gente”. Na cidadezinha em que passei minha adolescência, eu me ressentia da falta de amizades, porque só havia duas alternativas: as patricinhas e as maconheiras bicho-grilo (nada contra nenhuma das tribos, a questão é que eu simplesmente me sentia deslocada em ambas). Ninguém era como eu, assim... normal, sabe? Gente para quem roupas de grife não são tudo na vida, mas para quem também não é o cúmulo do materialismo e da futilidade malhar em uma academia e almejar comer em um restaurante bacana. Eu moro em Porto Alegre desde 2003, e desde então, não houve um único ano em que eu não tenha acrescentado um número razoável de pessoas legais à minha lista de amigos.

Porto Alegre também tem algumas peculiaridades. O centro da cidade não fica no centro da cidade. A Rua da Praia – cujo nome, de fato, é Rua dos Andradas – não tem praia nenhuma. E na zona sul existe um rio que na verdade nunca existiu, mas que arde em fins de tarde de luz vermelha, de dor vermelha, vermelho-anil.

Eu sou feliz... e sei!!! : )

Detalhe do Parque da Redenção: "quintal" saudoso da minha casa.


Geralmente utilizo este espaço para discutir assuntos objetivos: política, comportamento, arte. Hoje, no entanto, vou me egocentrar (não sei se existe este verbo – o Word não reconheceu –, mas se não existe, estou inventando agora!) e falar um pouco de mim!

Hoje faz dez dias que estou em Florianópolis. Tirando o recente dilúvio, não tenho do que reclamar. A casa em que estou hospedada não poderia ser melhor: os anfitriões são supergentis, a piscina é gostosíssima e no “meu” quarto tem computador plugado na internet. Ah, claro, tinha esquecido as praias... Mas dessas não preciso nem falar!

Contudo, tive um momento epifânico ontem. Num bar, no momento em que ouvi minha irmã dizer algo do tipo “Fica ali na Vasco”, referindo-se a uma rua do bairro Bom Fim, Porto Alegre, bairro este em que moro, me vieram à mente diversos elementos do meu cotidiano: o Zaffari, a locadora Espaço Vídeo, minha ruazinha amada, Fernandes Vieira, minha casa, minha cama, meus livros, meus cd’s, meu computador, MEUS AMIGOS, meus alunos, meu trabalho, os lugares que freqüento – a Redenção, a academia, a escola de música, os bares da Cidade Baixa, a Lancheria do Parque – enfim, A MINHA VIDA, e meu deu uma saudade doída dela, uma vontade louca de que o carnaval passe de uma vez e que tudo volte ao normal!!!

Foi neste momento, afastada de tudo e de todos, que percebi como minha vida, de uns tempos para cá – mais precisamente a partir de outubro de 2007, mais ou menos – tem sido maravilhosa!!! Tanta gente reclama da rotina, mas eu amo tanto a minha!

E então fiquei me perguntando: será que foi a minha vida que mudou ou fui eu que mudei o jeito de vivê-la?

Eu não sei a resposta, mas aposto na segunda hipótese. Houve, sim, algumas mudanças, das quais a que mais se destaca é o fato de eu ter começado a estudar canto. Não sei explicar o porquê, mas esta aproximação com a arte – e uma arte que envolve outras pessoas, como é o caso da música, porque desde sempre eu tenho o hábito de escrever, mas escrever é solitário, não envolve troca – mexeu muito comigo, me fez mais sociável, mais alegre, mais autoconfiante, e mais receptiva para as boas vibrações do mundo. Inclusive, justamente um colega da escola de música observou que eu tenho muita necessidade de me expressar. Ele tem razão. Mas eu não era assim. Tanto que publicava com muito menor freqüência neste blog. E me manifestava pouco em presença de outras pessoas, fosse em reuniões de trabalho, fosse em reuniões de amigos.

Mas todas essas mudanças provocadas pela música só foram possíveis porque eu mudei. Dois anos atrás, eu não teria me permitido interagir tanto com os colegas. Aliás, dois anos atrás, eu não teria me matriculado na tal escola de música. Tanto é que não me matriculei. : )

O que se passou comigo para que essas mudanças fossem possíveis?

Não consigo imaginar nenhuma outra resposta que não seja os quatro anos de análise. Quando me vejo quatro anos atrás, percebo o quanto eu era bruta, fria, medrosa. E sovina. Não em termos financeiros, porque não tinha tanto a poupar. Mas em termos de emoções – e isso eu já tinha de sobra, e economizava, escondia tudo debaixo do colchão, temerosa de investir em maus negócios, a espera daquele negócio da China que um dia chegaria e que, é evidente, nunca chegou. E, sendo assim, eu acumulava, e o acúmulo desvalorizava, embolorava e me fazia mal. Tanta economia resultava naquele famoso barato que sai caro. E o pior é que jamais suspeitei disso. Foi meu terapeuta que me mostrou. A muito custo, é claro, porque eu resistia a admiti-lo. O meu terapeuta, tem que ser tão paciente ele!...

O fato é que, nas emoções, assim como nas finanças, quem não aposta não ganha. E quem quer ganhar tem de estar disposto a perder. Tem de estar disposto a demonstrar mesmo sem a certeza de que a recíproca será verdadeira.

E neste sentido, posso dizer que estou me tornando uma investidora agressiva! Alguns riscos são irrelevantes, outros são bem grandes. Mas são eles que estão dando tanta cor à minha vida. A ponto de estar em férias em Floripa, morrendo de saudade da minha rotina em Porto Alegre!



P.S.: Eu desejo do fundo do meu coração que todas as pessoas que fazem parte da minha vida estejam tão de bem com suas vidas como estou com a minha! ; )

Friday, February 01, 2008

Sexo com amor?


O beijo, de Rodin: o sexo sem amor é um pré-requisito do erotismo autêntico.

Hoje estréia nos cinemas brasileiros a comédia Sexo com amor?, primeiro filme de Wolf Maya, adaptação de um longa chileno sobre três casais que passam por uma fase turbulenta no décimo ano de vida em comum. Não vi o filme, mas as breves sinopses a que tive acesso e o título me fizeram lembrar de súbito justamente o capítulo que estou lendo de um livro sobre sociobiologia, ramo da ciência que pretende encontrar razões biológicas para o comportamento humano.

Já me deparei com várias idéias com as quais discordei totalmente. Exemplo: os pais protegem tanto sua filha adolescente porque não querem que ela engravide cedo demais, pois neste caso, ela não terá perfeitas condições de criar seu bebê, que pode vir a morrer ou, caso vingue, crescer com fragilidades que impedirão a transmissão dos seus genes adiante. Em suma: os pais protegem porque querem garantir sua continuidade genética. Nada a ver com o sofrimento da menina em sacrificar sua adolescência e complicar sua vida pessoal e profissional no futuro. Francamente!!!

Outra coisa de que não gosto é a insistente idéia de analisar os seres humanos como se fosse um animal qualquer. Humanos têm psique, e isto muda, senão tudo, muita coisa.

Por exemplo, o autor diz que os machos (humanos, inclusive), por melhores que sejam em relação aos seus semelhantes, perdem sua posição no mercado sexual quando sua fêmea está prenhe (para humanos, leia-se “quando está comprometido”), porque tem uma companheira que precisa vigiar (proteger dos predadores, prover, etc, afinal, é o seu filho – seus genes – que está em jogo) e que também o vigia (para que outras fêmeas não venham seduzi-lo e, desse modo, abandone-a neste momento em que a força de um macho é imprescindível), e “por isso é menos desejável para outras mulheres. (...). Ele agora perde para machos que talvez sejam claramente inferiores, mas que são escolhidos em seu lugar simplesmente porque estão ‘livres’” (p.91). Pela lógica, as outras fêmeas preferem um macho que, apesar de não tão “bom partido”, estarão ao lado delas para criar a prole. Mas entre humanos, a lógica é outra, não obedecendo a relações de causa e efeito. Muitas mulheres se interessam, sim, por homens comprometidos, justamente porque são comprometidos! As razões podem ser várias: uma pode acreditar que só merece homens pela metade, ser a reserva, a segunda colocada no pódio; outra pode temer sofrer por um possível futuro abandono, e por isso, evita envolvimentos mais sérios. E nem todas querem ter prole (isto pode não ser natural – particularmente, acho muito bizarro alguém não querer ter filhos –, mas aí é que está o ponto em que eu insisto: humanos não são apenas naturais, mas também, e talvez principalmente, culturais).

Há contudo idéias interessantes que encontram, em alguma medida, correlato entre humanos. Por exemplo, quando se questiona sobre a suposta queda de freqüência sexual depois de determinado tempo de casamento, o autor, Robert Wallace, argumenta:

“Pessoas estabelecem laços. Alguns chamam isto de amor. Parece também que laços não se desenvolvem da noite para o dia. Se, para estabelecer laços, leva tempo, deve haver algum meio de conservar os sexos juntos por tempo suficiente para que os laços sejam formados – e sexo puro e bruto é um meio. Depois de formados os laços, a cópula se torna menos importante e muitas vezes diminui de freqüência.”

Ao ler este trecho, me veio à memória aquele verso da música de Arnaldo Jabor gravada por Rita Lee: “Sexo antes, amor depois”. Pois então, é aí que entra o título do filme de Wolf Maya: “sexo com amor?” Como diz Wallace, amor não brota da noite para o dia. Amor é uma construção. Aquilo de que os românticos do século XVIII falam em seus poemas e romances é outra coisa – projeções narcisistas, talvez – mas certamente não é amor. Portanto, ninguém faz sexo com amor sem antes tê-lo feito sem amor. Primeiro você faz sexo por uma série de outras motivações – atração física, carência afetiva, etc – e depois, com o tempo da convivência, das conversas pós-sexo (se você não teve o azar de estar com parceiros que dormiam – ou iam embora – logo depois – a não ser que você tenha levado para casa alguém tão desinteressante e sem assunto que quis mais é que a pessoa fosse embora de uma vez!), etc, etc, etc, vão surgindo outros interesses, outros encantos, e aí, sim, formam-se os laços para se fazer, enfim, sexo com amor.

Só não concordo quando o autor diz que “a cópula se torna menos importante”. Na minha opinião, não é que se torne menos importante. É que o casal passa a copular de outras maneiras – simbólicas. Freud pegou justamente de Darwin o conceito de evolução – segundo o qual dois se unem para criar um terceiro melhor – para sustentar a teoria de que o casal se une para criar terceiros melhores, o que não necessariamente são filhos. Pode ser a construção de uma casa, a formação de um negócio ou uma viagem. Enfim, qualquer projeto conjunto em que haja investimento – não só financeiro, mas emocional – de ambas as partes. Segundo Freud, tudo isso também é sexo. E com amor. Porque sexo sem amor você pode fazer com qualquer um, mas você não faria sociedade com o primeiro que lhe aparecesse pela frente, certo?

Wednesday, January 30, 2008

Nothing is gonna change my world


Jude observa seu campo particular de morangos eternos: "é preciso cultivar nosso jardim"


A inspiração vem de todos os lados...

Fui ao cinema assistir ao filme Across the universe pela segunda vez, e mais uma vez, saí da sala do cinema levitando, apesar de a cabeça estar pesada de idéias.

Como se passa na época da gênese da contracultura, há uma personagem, a Lucy, que é superidealista e participa de um grupo de pacifistas contrário ao envio de jovens americanos à Guerra do Vietnã. Ela se envolve tanto com sua luta, que acaba deixando em segundo plano o seu namorado, o Jude, que, é claro, fica puto com isso.

As duas personagens são faces de uma mesma moeda. Jude também vive neste mundo, portanto, de um jeito ou de outro, é afetado pelos rumos que ele toma. Lucy tem mais consciência disso, e tenta interferir nesta trajetória do mundo.

Só que não adianta. No final das contas, os pacifistas também constroem bombas – assim como o próprio John Lennon teve ligações escusas com o IRA (sinal de que ele não era tão “give peace a chance” assim, ou era, só que para ele, a palavra “paz” tem um sentido diferente do sentido que os outros dão, assim como “democracia” tem sentidos diferentes para a esquerda e para a direita, e “justiça”, para palestinos e israelenses...). Os pacifistas também são humanos, e como todos os humanos, fazem besteira, muitas vezes – acho que quase sempre – as mesmas dos seus inimigos, o que me faz pensar se não estamos todos brigando pela mesma coisa em conversa de surdos. É esta a dúvida cruel de Hamlet quando ele se pergunta: “Ser ou não ser, eis a questão!” Hamlet tem duas escolhas: aceitar covardemente que seu tio tenha assassinado seu pai para tomar o trono, ou honradamente vingar o pai, assassinando o tio e tomando o tr... ops, peraí: mas, neste caso, não estaria ele cometendo a mesma infâmia que o tio? A vida nos coloca em cada encruzilhada... (Parêntese: você já leu Hamlet? Pois então leia, leia já, pare agora de ler este blog – outra hora você volta e termina de ler – e vá atrás de uma edição de Hamlet, não ouse morrer sem antes ler Hamlet!!! E leia com atenção, porque cada frase, cada singela linha, é como aquelas caixas de presente que tem outra caixa por dentro, que tem outra e mais outra, uma loucura! – e uma lucidez impressionante!)

Lucy condena Jude, que vive só em seu mundo, fazendo seus rabiscos (no filme, Jude é artista plástico), enquanto o mundo está se destruindo. Pobre Lucy, não percebe que a alienada é ela. Ela é que vive num mundo de sonhos. Ela é quem vive no céu. E rodeada de diamantes.

Penso como a letra da música Revolution, que Jude canta para Lucy:

You say you want a revolution
Well you know
We all want to change the world

You tell me that it's evolution
Well you know
We all want to change the world

But when you talk about destruction
Don't you know you can count me out

Don't you know it's gonna be

Alright
Alright
Alright

You say you got a real solution
Well you know
We'd all love to see the plan

You ask me for a contribution
Well you know
We're all doing what we can

But if you want money for people with minds that hate
All I can tell you is brother you have to wait

Don't you know it's gonna be

Alright
Alright
Alright

You say you'll change the constitution
Well you know
We'd all love to change your head

You tell me it's the institution
Well you know
You'd better free your mind instead

But if you go carrying pictures of Chairman Mao
You ain't going to make it with anyone anyhow

Don't you know it's gonna be
Alright
Alright
Alright

oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, alright,
alright, alright, alright, alright, alright, alright,
alright, alright, alright, alright, alright...

Acho esta letra fantástica! É claro que todos queremos mudar o mundo, mas como? Ah, você tem a solução? Qual? Existem 6 bilhões de pessoas no planeta, acha mesmo que todas as outras 5.999.999.999 vão concordar? Acredita que consegue convencê-las todas? Creio que não. A não ser que use a força para isso, mas aí... Hamlet.

Não quero dizer com isso que estou me lixando para o mundo. A questão é que querer transformá-lo todo é uma luta inglória. Mas há uma medida possível: nunca esqueço de algo que Renato Russo disse naquele álbum ao vivo Como é que se diz eu te amo, “Consertar a gente já ajuda pra caramba!” A maioria dos militantes acusa os “alienados” de se preocupar de menos com o mundo e demais com seus próprios umbigos. Pois é justamente isso que eu recomendo aos militantes: olhem um pouco mais para seus próprios umbigos! Vocês descobrirão coisas incríveis, muitas tendo muito o que consertar!

Jude diz, a certa altura, que seu problema é não ter causa nenhuma. Ele está enganado. Ele tem. Mesmo sem saber, está seguindo o conselho de Voltaire de cultivar seu próprio jardim. Assim como eu.

Mudar eu mesma é a minha causa. Esta é a minha maior utopia. E sei que utopia é um lugar que não existe, mas o que imorta é o tanto que eu caminho em direção a ela, como diz Eduardo Galeano:

Eu caminho dez passos, ela se afasta dez passos;
Eu caminho vinte passos, ela se afasta vinte passos;
Eu caminho trinta passos, ela se afasta trinta passos.
Para isso serve a utopia:

Para caminhar.

; )

Tuesday, January 29, 2008

Sobre dias de sol e ameaças de chuva...


Eu curtindo um dia de sol sem me preocupar com os dias vindouros de nuvens carregadas


Lembram da Soninha Francine, a VJ da MTV que foi demitida da TVE por admitir no ar que fumava maconha? Pois é, ela escreve uma coluna para a revista Vida Simples, que é, por sinal, uma revista muito interessante. Um dia, ela escreveu sobre curtir os dias de sol sem se preocupar com os dias nublados que estavam por vir. Era uma metáfora, óbvio. Na época, Soninha enfrentava o tratamento da filha de 7 anos, que sofria de leucemia. Evidentemente ela estava se referindo ao fato de aproveitar os dias com sua pimpolha sem se preocupar se no dia seguinte a menina estaria internada num hospital ou... bem, não vamos falar no pior.

Terminando de ler a coluna, olhei para a foto da Soninha como se olha para um totem! Francamente, não sei se eu teria forças para exibir aquele sorriso e a serenidade daquelas palavras se tivesse uma garotinha de 7 anos com leucemia!

O caso da Soninha era grave. Mas o de muitas outras pessoas não é. Nem por isso elas deixam de se preocupar com a tempestade em dias esplendorosamente ensolarados!

Um exemplo: um casal em fase de aproximação. Eu sei que as dores do passado nos deixam calejados, mas para que se preocupar com a certeza – que pode não se confirmar – de que toda a magia desta fase inicial vai se acabar? Aproveite-se a magia enquanto ela existe e vê-se o que se pode fazer quando ela acabar – se é que ela vai acabar, porque ela pode simplesmente passar por uma transformação, o que não é sinônimo de fim.

Isso me lembra a última cena do filme Brilho eterno de uma mente sem lembranças. Quando Joel demonstra querer ficar com a Clementine, ela começa a fazer uma lista de seus defeitos. Joel apenas olha para ela com uma expressão que parece dizer “Ok, eu te quero mesmo assim!”

Eu entendo a Clementine. Alguns relacionamentos nos deixam mesmo numa situação muito delicada: ou vivemos para corresponder às expectativas do parceiro, ou o decepcionamos – e, que desforo!, ainda temos de dar satisfações por não sermos aquilo que ele idealizou de nós!

Mas eu também entendo o Joel. Qualquer pessoa minimamente saudável sabe – e se conforma com isso – que todos têm defeitos. E às vezes, surpresa!, é dos defeitos mesmo que a gente gosta! Ou vocês acham que Joel não adora o jeito doidinho da Clementine?

Um dia, um dos melhores professores que eu tive na minha vida, o professor Jaime Ginzburg, de Literatura Brasileira, na faculdade de Letras da UFSM, disse que o amor é uma aceitação mútua de precariedades: “Você aceita a minha precariedade e eu aceito a sua”. Eu, que tinha apenas 19 ou 20 anos, sempre tinha visto o amor como uma admiração mútua de qualidades. E não mudei de opinião, apenas acrescentei a ela a perspectiva do professor.

Mas o fato é que prefiro admirar as qualidades sem ficar me preocupando com a precariedade. Isso não é viver de um modo ingênuo. Não ignoro os defeitos. Mas só lhes dou atenção quando eles pedem!