Wednesday, January 30, 2008

Nothing is gonna change my world


Jude observa seu campo particular de morangos eternos: "é preciso cultivar nosso jardim"


A inspiração vem de todos os lados...

Fui ao cinema assistir ao filme Across the universe pela segunda vez, e mais uma vez, saí da sala do cinema levitando, apesar de a cabeça estar pesada de idéias.

Como se passa na época da gênese da contracultura, há uma personagem, a Lucy, que é superidealista e participa de um grupo de pacifistas contrário ao envio de jovens americanos à Guerra do Vietnã. Ela se envolve tanto com sua luta, que acaba deixando em segundo plano o seu namorado, o Jude, que, é claro, fica puto com isso.

As duas personagens são faces de uma mesma moeda. Jude também vive neste mundo, portanto, de um jeito ou de outro, é afetado pelos rumos que ele toma. Lucy tem mais consciência disso, e tenta interferir nesta trajetória do mundo.

Só que não adianta. No final das contas, os pacifistas também constroem bombas – assim como o próprio John Lennon teve ligações escusas com o IRA (sinal de que ele não era tão “give peace a chance” assim, ou era, só que para ele, a palavra “paz” tem um sentido diferente do sentido que os outros dão, assim como “democracia” tem sentidos diferentes para a esquerda e para a direita, e “justiça”, para palestinos e israelenses...). Os pacifistas também são humanos, e como todos os humanos, fazem besteira, muitas vezes – acho que quase sempre – as mesmas dos seus inimigos, o que me faz pensar se não estamos todos brigando pela mesma coisa em conversa de surdos. É esta a dúvida cruel de Hamlet quando ele se pergunta: “Ser ou não ser, eis a questão!” Hamlet tem duas escolhas: aceitar covardemente que seu tio tenha assassinado seu pai para tomar o trono, ou honradamente vingar o pai, assassinando o tio e tomando o tr... ops, peraí: mas, neste caso, não estaria ele cometendo a mesma infâmia que o tio? A vida nos coloca em cada encruzilhada... (Parêntese: você já leu Hamlet? Pois então leia, leia já, pare agora de ler este blog – outra hora você volta e termina de ler – e vá atrás de uma edição de Hamlet, não ouse morrer sem antes ler Hamlet!!! E leia com atenção, porque cada frase, cada singela linha, é como aquelas caixas de presente que tem outra caixa por dentro, que tem outra e mais outra, uma loucura! – e uma lucidez impressionante!)

Lucy condena Jude, que vive só em seu mundo, fazendo seus rabiscos (no filme, Jude é artista plástico), enquanto o mundo está se destruindo. Pobre Lucy, não percebe que a alienada é ela. Ela é que vive num mundo de sonhos. Ela é quem vive no céu. E rodeada de diamantes.

Penso como a letra da música Revolution, que Jude canta para Lucy:

You say you want a revolution
Well you know
We all want to change the world

You tell me that it's evolution
Well you know
We all want to change the world

But when you talk about destruction
Don't you know you can count me out

Don't you know it's gonna be

Alright
Alright
Alright

You say you got a real solution
Well you know
We'd all love to see the plan

You ask me for a contribution
Well you know
We're all doing what we can

But if you want money for people with minds that hate
All I can tell you is brother you have to wait

Don't you know it's gonna be

Alright
Alright
Alright

You say you'll change the constitution
Well you know
We'd all love to change your head

You tell me it's the institution
Well you know
You'd better free your mind instead

But if you go carrying pictures of Chairman Mao
You ain't going to make it with anyone anyhow

Don't you know it's gonna be
Alright
Alright
Alright

oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, alright,
alright, alright, alright, alright, alright, alright,
alright, alright, alright, alright, alright...

Acho esta letra fantástica! É claro que todos queremos mudar o mundo, mas como? Ah, você tem a solução? Qual? Existem 6 bilhões de pessoas no planeta, acha mesmo que todas as outras 5.999.999.999 vão concordar? Acredita que consegue convencê-las todas? Creio que não. A não ser que use a força para isso, mas aí... Hamlet.

Não quero dizer com isso que estou me lixando para o mundo. A questão é que querer transformá-lo todo é uma luta inglória. Mas há uma medida possível: nunca esqueço de algo que Renato Russo disse naquele álbum ao vivo Como é que se diz eu te amo, “Consertar a gente já ajuda pra caramba!” A maioria dos militantes acusa os “alienados” de se preocupar de menos com o mundo e demais com seus próprios umbigos. Pois é justamente isso que eu recomendo aos militantes: olhem um pouco mais para seus próprios umbigos! Vocês descobrirão coisas incríveis, muitas tendo muito o que consertar!

Jude diz, a certa altura, que seu problema é não ter causa nenhuma. Ele está enganado. Ele tem. Mesmo sem saber, está seguindo o conselho de Voltaire de cultivar seu próprio jardim. Assim como eu.

Mudar eu mesma é a minha causa. Esta é a minha maior utopia. E sei que utopia é um lugar que não existe, mas o que imorta é o tanto que eu caminho em direção a ela, como diz Eduardo Galeano:

Eu caminho dez passos, ela se afasta dez passos;
Eu caminho vinte passos, ela se afasta vinte passos;
Eu caminho trinta passos, ela se afasta trinta passos.
Para isso serve a utopia:

Para caminhar.

; )

Tuesday, January 29, 2008

Sobre dias de sol e ameaças de chuva...


Eu curtindo um dia de sol sem me preocupar com os dias vindouros de nuvens carregadas


Lembram da Soninha Francine, a VJ da MTV que foi demitida da TVE por admitir no ar que fumava maconha? Pois é, ela escreve uma coluna para a revista Vida Simples, que é, por sinal, uma revista muito interessante. Um dia, ela escreveu sobre curtir os dias de sol sem se preocupar com os dias nublados que estavam por vir. Era uma metáfora, óbvio. Na época, Soninha enfrentava o tratamento da filha de 7 anos, que sofria de leucemia. Evidentemente ela estava se referindo ao fato de aproveitar os dias com sua pimpolha sem se preocupar se no dia seguinte a menina estaria internada num hospital ou... bem, não vamos falar no pior.

Terminando de ler a coluna, olhei para a foto da Soninha como se olha para um totem! Francamente, não sei se eu teria forças para exibir aquele sorriso e a serenidade daquelas palavras se tivesse uma garotinha de 7 anos com leucemia!

O caso da Soninha era grave. Mas o de muitas outras pessoas não é. Nem por isso elas deixam de se preocupar com a tempestade em dias esplendorosamente ensolarados!

Um exemplo: um casal em fase de aproximação. Eu sei que as dores do passado nos deixam calejados, mas para que se preocupar com a certeza – que pode não se confirmar – de que toda a magia desta fase inicial vai se acabar? Aproveite-se a magia enquanto ela existe e vê-se o que se pode fazer quando ela acabar – se é que ela vai acabar, porque ela pode simplesmente passar por uma transformação, o que não é sinônimo de fim.

Isso me lembra a última cena do filme Brilho eterno de uma mente sem lembranças. Quando Joel demonstra querer ficar com a Clementine, ela começa a fazer uma lista de seus defeitos. Joel apenas olha para ela com uma expressão que parece dizer “Ok, eu te quero mesmo assim!”

Eu entendo a Clementine. Alguns relacionamentos nos deixam mesmo numa situação muito delicada: ou vivemos para corresponder às expectativas do parceiro, ou o decepcionamos – e, que desforo!, ainda temos de dar satisfações por não sermos aquilo que ele idealizou de nós!

Mas eu também entendo o Joel. Qualquer pessoa minimamente saudável sabe – e se conforma com isso – que todos têm defeitos. E às vezes, surpresa!, é dos defeitos mesmo que a gente gosta! Ou vocês acham que Joel não adora o jeito doidinho da Clementine?

Um dia, um dos melhores professores que eu tive na minha vida, o professor Jaime Ginzburg, de Literatura Brasileira, na faculdade de Letras da UFSM, disse que o amor é uma aceitação mútua de precariedades: “Você aceita a minha precariedade e eu aceito a sua”. Eu, que tinha apenas 19 ou 20 anos, sempre tinha visto o amor como uma admiração mútua de qualidades. E não mudei de opinião, apenas acrescentei a ela a perspectiva do professor.

Mas o fato é que prefiro admirar as qualidades sem ficar me preocupando com a precariedade. Isso não é viver de um modo ingênuo. Não ignoro os defeitos. Mas só lhes dou atenção quando eles pedem!

Ainda sobre a felicidade...

Escrevendo ontem sobre o hábito de algumas pessoas de postergarem a felicidade, não pude deixar de lembrar de dois poemas. O primeiro é o excelente Adiamento, de Álvaro de Campos, o heterônimo mais melancólico de Fernando Pessoa:

Adiamento

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...

Sim, talvez só depois de amanhã...
O porvir...
Sim, o porvir...

O sujeito do poema parece estar convicto de que realmente tem condições de conquistar o mundo – e não duvido de que as tenha mesmo –, mas deixa para fazê-lo no futuro porque... bem, porque, como já escrevi no post anterior, conquistar não tem graça. Almejar a conquista é que tem. Ou talvez o sujeito seja apenas preguiçoso. Deixa para amanhã porque... acredita que o futuro lhe pertence. Confia na vida e não conta com a morte. Eis o risco de deixar as coisas para amanhã. Nem sempre o porvir de fato vem.

Julgar que “depois de amanhã é que está bem o espetáculo” é raciocínio de quem vive de imagem, de quem quer agradar aos outros, de quem pensa que precisa provar algo para alguém. Por que não fazer o espetáculo hoje? Porque ainda não está bem ensaiado? Porque ainda faltam alguns detalhes? E daí? Quem se importa? Você? Tem certeza que é mesmo à sua auto-exigência que quer atender?

Aliás, para que (ou para quem) fazer espetáculo, hein? Tive oportunidade de participar de um tempos atrás e posso assegurar que os preparativos & bastidores foram muito mais interessantes do que o espetáculo em si. E é melhor que tenha sido assim – e seria bom que fosse assim sempre, tanto no sentido real quanto (e principalmente) no metafórico –, porque em tudo na vida o processo é mais longo do que o fim. No caso do espetáculo real, só fiquei 3 minutos e 54 segundos no palco, veja só!...


Outro poema que me veio à mente é o Eterna mágoa, de Augusto dos Anjos:

Eterna mágoa

O homem por sobre quem caiu a praga
Da tristeza do Mundo, o homem que é triste
Para todos os séculos existe
E nunca mais o seu pesar se apaga!

Não crê em nada, pois, nada há que traga
Consolo à Mágoa, a que só ele assiste.
Quer resistir, e quanto mais resiste
Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga

Sabe que sofre, mas o que não sabe
É que essa mágoa infinda assim, não cabe
Na sua vida, é que essa mágoa infinda

Transpõe a vida do seu corpo Inerme;
E quando esse homem se transforma em verme
É essa mágoa que o acompanha ainda!

Em suma, se você acha que vai ser feliz quando atingir este ou aquele objetivo, esqueça! A pessoa que é infeliz não o é porque lhe falta algo, e nem mudará sua condição quando suprir esta carência. A felicidade – assim como a infelicidade – jamais virá de uma circunstância externa. O problema – e, eureka!, a solução – estão dentro da gente, e em nenhum outro lugar! (parece papo piegas de livro de auto-ajuda, mas a culpa é destes livros que tornam diversas verdades piegas!)

Não poderia deixar de terminar esta seção sem aqueles versos da música O que vem a ser felicidade?, de Orlando Morais (sim, mais conhecido como o-marido-da-glória-pires, mas que tem algumas composições muito legais, sim, senhor!):

Este sentimento poderoso
é um estado, é capital, é um país,
e o que há de mais maravilhoso é descobrir
que o tempo inteiro estava a um palmo do nariz...

;)

Monday, January 28, 2008

Quem não tem presente se conforma com o futuro

Quando tinha 13 anos, B. foi com a mãe retirar as fotos do Natal – na época, foto era algo que se tirava em máquinas analógicas e que se esperava algum tempo para que fossem reveladas – e ficou pasma como que viu: ela descobriu que era gorda. Engraçado, ela não se via exatamente daquela maneira no espelho, mas era fato, as fotos não mentiam: ela estava gorda. E a sensação de se ver assim era muito desagradável. B., então, decidiu que não tiraria mais fotos até emagrecer. Quem sabe até o seu aniversário ela estaria mais magra? Ou então até o próximo Natal? A decisão estava tomada: não tiraria mais fotos até ficar magra. Aliás, ela também não iria a festinha nenhuma até emagrecer. Não flertaria com nenhum menino. Não seria feliz até emagrecer. Porque felicidade não ficava bem num manequim 44. A felicidade só era compatível com a sua imagem idealizada de magra. Para tudo havia um padrão, e com a felicidade não seria diferente.

E B. seguiu em frente em busca da melhor forma para a sua felicidade. Fez a dieta da lua, da proteína, dos pontos. Fez sessões exaustivas de ginástica, passou os mais variados produtos na pele. Perdeu quilos em poucas semanas, e depois ganhou o dobro deles em uma.

B. tem agora 25 anos. E não tem fotos da adolescência. Nem da fase universitária. B. nunca emagreceu. E nunca foi tão gorda assim.

Nem feliz. B. caiu numa cilada que armou para si mesma: a de impor condições para a própria felicidade.

Mude-se a inicial por qualquer outra letra do alfabeto, e também o objetivo. B. é só um exemplo. Existem milhões de Xs, Ys e Zs que pensam só poder ser felizes quando diminuírem as orelhas de abano, forem ricos ou morarem em outra cidade. E muitas vezes, ao contrário da minha infeliz B. fictícia, elas conseguem atingir seus objetivos. Mas que engraçado, mesmo assim, elas não conseguem sentir aquilo que elas esperavam sentir. Por que será?

Ora, porque quem adia a felicidade é feliz de um modo torto; é feliz em adiar a felicidade. Para estas pessoas, a verdadeira felicidade é aguardá-la. Quando fez a cirurgia nas orelhas, X começou a implicar com o nariz, é claro, porque do contrário, ele estaria feliz, e ele não sabe muito bem lidar com isso. Tendo atingido a felicidade, o que ele faria com ela? Ele não está acostumado com isso. X não sabe ser feliz. X só sabe esperar pela felicidade. Esta é a sua especialidade: aguardar o futuro, ignorando o presente.

O problema é que quando o futuro chega, não há passado, não há experiência. E quando não se tem passado, é como estar numa estrada reta, sem placas de sinalização, nem árvores, nem nada: nenhuma referência. Tudo é igual. E nesta situação nos sentimos perdidos. Não sabemos em qual trevo entrar. Não sabemos aproveitar a felicidade quando ela chega. Nós a tratamos como aquele hóspede que julgamos ser muito exigente, ficamos sem jeito de recebê-la, só porque não temos os melhores lençóis, nem o melhor vinho para oferecer. Não, não, não. Não temos condições de hospedá-la da melhor forma, e se não for da melhor forma, não pode ser de forma nenhuma. Volte outra hora, volte quando estivermos melhor preparados. E ela, que na sua simplicidade, só queria uma porta aberta, vai embora, em busca de melhores anfitriões, que são simplesmente os que demonstram prazer em receber.

Thursday, January 24, 2008

Complain, monkeys, complain!!!

“Tenho náusea física da humanidade, que é, aliás, a única que há”. Assim disse Bernardo Soares, heterônimo de Fernando Pessoa, no seu Livro do Desassossego. Afortunadamente, não tenho náusea física da humanidade. Só de uma parcela dela.

E a parcela mais nauseabunda que há é a daquelas pessoas descrentes da humanidade – da qual, parece, Soares fazia parte – de Pessoa não me arrisco a falar, porque ele era muitos. Dia desses eu assisti a um vídeo no YouTube chamado Dance, monkeys, dance! O vídeo dedica-se a debochar do ser humano, focando a sua ridícula pretensão de acreditar ser superior aos demais animais. Tudo o que eu penso quando vejo tal vídeo é “Perdoai-os, Senhor, eles não sabem o que dizem”. E não estou falando dos humanos. Nem dos animais. Refiro-me aos humanos que pensam assim.

Chama a atenção o trecho do vídeo que afirma, cheio de sarcasmo, que o ser humano é o único animal que acha que deveria ser feliz. Os outros animais se contentam em simplesmente ser. O que o autor do vídeo sugere? Que nós deveríamos também nos contentar em “simplesmente ser”? Então deveríamos viver apenas para dormir, comer, transar, parir e fugir de predadores? Deveríamos viver como animais?! Ah, esqueci: é que, para o autor, nós somos animais como quaisquer outros. Aham.

Imagino que quem pensa assim nunca se emocionou com uma música. Nem com um filme. Nunca leu um livro e ficou pasmo com a habilidade do autor de descrever exatamente o que ele sentiu naquela mesma situação. Aliás, nunca se consolou por saber que não é um solitário na sua dor – ou na sua alegria. Nunca se surpreendeu ao descobrir que também outras pessoas já sentiram aquilo.

Quem pensa assim nunca precisou de anestesia. Nunca teve pressa e precisou de um carro ou de um avião. Quem pensa assim não acha ruim comer carne crua. E não se incomoda de dormir ao relento. Quem pensa assim nunca pôs a cabeça em um travesseiro de penas, nem mergulhou em uma piscina em dia de calor escaldante. Também nunca tomou uma cerveja gelada com amigos num dia quente. Nem um café quentinho numa tarde hostil de inverno. Quem pensa assim acha ótimo tomar banho gelado no inverno. E não tem fotografias da sua infância. Quem pensa assim escreve tudo à mão e não vê mal nenhum em gastar o triplo de tempo para isso.

Quem pensa assim nunca ouviu “eu te amo”, nem “eu te odeio”. Nunca ouviu “como é bom ser tua irmã!” ou “por que não foste lá?, fizeste falta!”. Nunca ouviu, nem disse “adorei te conhecer”. Nunca teve o prazer de dar um presente. Nunca ajudou um cego a atravessar a rua ou pegou um bebê no colo. Nunca curtiu saudade, muito menos teve a alegria de matá-la.

O narrador diz que os homens negam ser macacos. Que eles querem ser outra coisa que não macacos, mas que não são. Eu digo que são, sim!

Também não sou especista. Respeito o animais e acredito que todos devem ter seu espaço e dignidade respeitados. Sou contra o uso de animais em circos. Não tenho casaco de pele, nem como foie gras. Eu acho o Knut um fofo. Apóio a luta pela preservação dos ursos pandas. Também quero que salvem as baleias. Mas os animais que pensam como o autor desse vídeo, a extinção desses não me comove.

Wednesday, January 16, 2008

Tudo pode ser seu!...


Fale em cantoras brasileiras, e todos lembrarão dos mesmos nomes: Elis, Gal, Bethânia, Marisa Monte... Mais recentemente uniram-se ao grupo Ana Carolina, Ivete Sangalo. Quase ninguém lembra da Marina. Sim, a Marina Lima. E a Marina deveria ser lembrada com mais carinho e mais respeito. É dela a versão mais sensual que existe de Garota de Ipanema. E de Only You também. Se um homem fizesse uma serenata para mim cantando Only You como os The Platters, eu ia achar divertido. Se ele cantasse como a Marina canta, eu me apaixonaria. Sério, eu casaria com o cara! E a parceria com o Caetano Veloso em Nosso estranho amor? Lindíssima. Isso sem falar na versão que ela fez de Mesmo que seja eu, mais viril do que a do próprio Erasmo Carlos (aliás, que letra, Erasmo, que letra!!!).

E como se não bastasse a forma que a Marina dá às músicas, ainda tem o conteúdo das suas próprias composições, aquelas que ela fez com seu irmão, o filósofo Antônio Cícero. Não vou falar do “você me abre seus braços/e a gente faz um país” porque este, embora bonito, já está caindo na pieguice e no descrédito na atual conjuntura do Brasil. Mas tem “a única morada de um homem está no extraordinário”, da canção Próxima parada. Se isso for mesmo verdade, o que estamos fazendo aqui, no tão terrivelmente ordinário? Vendo a vida passar?

Isso acaba de me lembrar uma aula de recuperação que dei não faz muito tempo. Uma aluna que fez bagunça o ano inteiro resolveu prestar atenção na aula de recuperação. Me ouviu, fez perguntas, resolveu todos os exercícios. No final, saiu da sala de aula dizendo “Gostei desta aula”. Eu respondi que ela podia ter gostado das aulas do ano inteiro, bastava ela ter se envolvido como ela se envolveu naquela aula derradeira. Qualquer coisa é chata se a gente não mergulha nela. Coisa bem ruim é pintar uma parede ou fazer uma faxina com medo de sujar as mãos. Vamos passar o tempo todo nos estressando – e o trabalho vai resultar mal feito. Para mim, o extraordinário a que se refere Marina está em tudo ao qual a gente se entrega – mas a entrega não pode ser unilateral, tem que ser de todos os envolvidos! Nós acabamos todos sujos, mas é de uma sujeira compartilhada, e dá tanta satisfação ver o resultado do trabalho que nem percebemos nossa imundície.

Outro verso da Marina de que gosto muito é o “Agora descubra de verdade o que você ama/Que tudo pode ser seu”, da música Pra começar. Eu não diria que fazer tal descoberta seja o bastante, mas é um grande passo! Sua vida está parada? Descubra algo de que goste muito e faça um movimento, um simples movimento: pode ser se matricular num curso de pintura em acrílico, ou buscar contatos na área em que você deseja abrir um negócio. Comece! Dê esta tacada inicial, e verá como uma bola baterá em outra, que baterá em outra, que baterá em outra de cuja existência você nem suspeitava, e o jogo se desenhará numa nova configuração para você, talvez não muito fácil, mas tão sedutora, que você não quererá sair deste jogo antes do fim!

Um movimento! Faça um simples movimento! E nas horas vagas, escute Marina. Ela merece sua atenção.

Wednesday, January 09, 2008

Há dias em que não estou bem

Há dias em que não estou bem. Não é o não estar bem de quando se tem preguiça de ir trabalhar. Não é o não estar bem de quando se bebeu demais. Não é o não estar bem de quando sentimos fome, sede ou frio – não é falta de alimento, água ou agasalho. É um não sentir-se bem que vem da escassez de algo de que nem se desconfia o que é.

São dias em que não se tem vontade de fazer nada, nem mesmo as coisas de que se mais gosta. Gosto de assistir a filmes, mas não tenho vontade de assistir a algum. Gosto de ler, mas nenhum livro agrada a mim. Gosto de navegar na Internet, mas que aborrecida é a Internet! Gosto de conversar com amigos, mas que preguiça de ligar para eles!

Dizem que sentimentos negativos atraem vibrações negativas. Mas como evitá-los? Como evitar sentir inveja do amigo que vem fazendo progressos financeiros ou da amiga que anuncia gravidez? Pior: como evitar sentir-se culpada por ter um sentimento tão execrado – embora sentido – por todos, a ponto de às vezes não admiti-lo sequer para si mesmo? Para onde vai esta inveja, se não a reconheço e não lhe dou um destino? Contra quem ela se volta? Contra mim, é claro. Prostra-se, senhora de si, sob este disfarce de não estar bem. E como evitar?

E, pior ainda, quando a inveja não é de algo nobre, como progredir materialmente ou formar família? E quando a inveja é de um amigo desempregado que pode dormir até tarde durante a semana? E quando a inveja é de alguém que nossa razão diz ser apenas digno de piedade? Como não se sentir mal? Como não sentir, somada à culpa de sentir inveja, vergonha de sentir inveja de coisas mesquinhas? Como evitar a bola de neve formada pela inveja, culpa, vergonha e o que mais esta última trouxer consigo?

Uma etiqueta das emoções. É o que o homem criou. Um código do que é certo e errado no quesito sentir, assim como no vestir-se e no portar-se à mesa. Tem até o vai-e-vem de modas. Ambição, por exemplo, já esteve fora de moda. Ou pelo menos já foi muito condenada. Houve tempo em que todos os vilões das telenovelas eram ambiciosos, ao passo que os mocinhos enriqueciam sem querer. Hoje, ambição é bem vista, como aquelas roupas espalhafatosas da década de 80, para quem todo o mundo torcia o nariz pouco tempo atrás, o mesmo todo o mundo que agora as estão usando e achando o máximo.

E será que, como na moda indumentária, há sentimentos que só ficam bem para os outros, e não para mim? Será que alguns sentimentos combinam apenas com determinados tipos de pessoas. Mini-blusas só ficam adequadas em mulheres sem barriga. Será que a alegria só cai bem para certas pessoas? E a raiva? E o desejo de vingança? E o orgulho? E a compaixão? E a nostalgia? E a autocomiseração?

A diferença é que quando saem de moda, os tais modelos deixam de ser produzidos. Mas e os sentimentos? Deixam de se criar e se desenvolver dentro da gente só porque são politicamente incorretos? Será que o meio interfere tanto nas nossas vidas a ponto de determinar até nossos sentimentos? Ou será que eles continuam a nos acompanhar sob disfarces insuspeitáveis, e ficam a nos assombrar?

P.S.1: Este texto foi escrito há muito tempo, num dia em que não estava mesmo bem. Ele não reflete, de modo algum, o meu estado de espírito dos dias de hoje. Ainda bem!

P.S.2: Vívian, como não deixas um contato para que eu possa agradecer a ti pelos elogios? Faço-o aqui. Não sabes o bem que fazem palavras encorajadoras como as tuas! Muito obrigada mesmo!

Monday, December 31, 2007

Saldo 2007: positivo

Depois que li minha última postagem percebi que deixar tal texto como última postagem do ano seria muito amargo para um ano que foi muito generoso comigo. Vamos à lista de pontos positivos:

1) Finalmente consegui um emprego em um colégio particular de Porto Alegre! :)
2) Fiz amizades ótimas neste colégio!
3) Finalmente comecei a fazer aulas de canto!
4) Cantei no Teatro de Câmara Túlio Piva!
5) Fiz mais amizades ótimas na escola de música!

Que estas novas amizades perdurem e que tragam sempre mais novas amizades!!!

Thank you very much, 2007!

Feliz 2008 a todos!


Marcos, Ester, Maurício, Eu, Gilson e Fabinho pouco antes de entrarmos no palco: algumas das pessoas muito legais que conheci em 2007.

Vale tudo na Republiqueta da(o)s Bananas

Em 2008, a novela Vale Tudo, escrita por Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères e exibida pela Rede Globo, completa vinte anos. Quem assistiu não esquece. Não lembro de novela mais cruamente realista. Odete Roitman esculhambando o país, Marco Aurélio dando uma "banana" para ele enquanto foge com uma mala de dólares.

Lembro de uma cena em que Maria de Fátima (Glória Pires) tentava aplicar um migué em Marco Aurélio (Reginaldo Faria), ao que este respondeu, do alto da sua mesa de executivo da empresa do setor de aviação (ironia do destino!) TCA, em bom sotaque carioca: "Só se for pra tuas nêga!" Se Bakhtin tivesse visto isso, iria adorar ver um representante da elite emitindo esse discurso com desvio do padrão formal da língua. Ponto para os autores do diálogo, que chamaram a atenção do povo para o fato de que a elite brasileira pode até ser elite, mas, ainda assim, continua sendo brasileira - e isso dispensa comentários. Daí o "só se for pra tuas nêga!"

O que me fez lembrar desta novela foi uma foto publicada na edição de retrospectiva 2007 da Veja: uma foto de Renan Calheiros literalmente fazendo careta de deboche para todos nós. Como não lembrar da "banana" de Marco Aurélio? Como não lamentavelmente concordar com Odete Roitman?

Acho graça quando alguns brasileiros escrevem em letras garrafais pelos cartazes e muros afora que querem sua dignidade de volta. De volta? Algum dia houve dignidade?

O Brasil só vai ter dignidade - e a partir disso, começar a crescer - quando admitirmos, primeiro para nós mesmos, depois para o mundo (que já está careca de saber) que nós somos escravos, que fazemos o trabalho sujo que os países desenvolvidos preferem pagar para que façamos para eles porque estão ocupados com atividades mais nobres. Quando realmente conseguirmos não mais nos ofender quando os estrangeiros pensam que Brasil é só futebol e samba - porque, de fato, o Brasil é mesmo só futebol e samba, se não fosse, o povo não teria ficado mudo diante da absolvição de Renan Calheiros -, e decidirmos tirar proveito disso, aí, sim, talvez façamos progressos.

Em 2001, em um discurso para empresários brasileiros, o então presidenciável Lula disse que os países desenvolvidos precisam saber que o Brasil não é uma republiqueta das bananas. Mas o Brasil é uma republiqueta das bananas. E as bananas, aqui, têm triplo sentido.

Cena de Odete Roitman falando mal do Brasil:

http://www.youtube.com/watch?v=gloar9xq-ok&feature=related

Sunday, December 02, 2007

"Eu pensava que era assim"

Outro dia fiquei sabendo de uma notícia infelizmente não tão incomum: um pai que levava diariamente a filha à escola abusava dela – também diariamente – no meio do trajeto. Perguntada sobre o porquê de nunca ter reclamado do abuso a outros adultos, a menina respondeu singelamente, como só as crianças sabem ser: “eu pensava que era assim”.
Não me chamou tanto a atenção a violência. Chamou-a a resposta da menina: “eu pensava que era assim”. É verdade, quando somos crianças, o mundo é a nossa família. Se nossos pais costumarem beber água do bico da chaleira, vamos achar que doidos são os que têm o estranho hábito de tomar água em copo. Talvez a menina achasse natural não só ser abusada – para ela, nem era abuso – mas também tenha crescido acreditando que aquilo tudo fazia parte do “ritual” de ir à escola. Pode ser que ela supusesse, ao chegar na sala de aula, que também suas coleguinhas faziam aquilo com seus respectivos pais. E que também elas tinham sangramentos e desconfortos, coisas naturais de se ir à escola e do relacionamento com os pais.
Fico imaginando a perplexidade da menina diante da perplexidade dos demais adultos quando lhe perguntaram porque nunca havia se queixado. Deve ter se sentido como nós nos sentiríamos caso um grupo de adultos nos tivesse perguntado, quando éramos crianças: “O quê?! A sua mãe manda você tomar banho todos os dias depois que chega da escola?! Gente, a mãe dela manda ela toma banho todos os dias quando chega da escola!” Vêm dois ou três adultos e me abraçam com compaixão: “Meus Deus! Banho todos os dias ao chegar da escola! Fazer isso com uma criança inocente! Como tem gente doente neste mundo!!!” Tiram-me da guarda da minha mãe, prendem-na, e passo a conviver com olhares piedosos em minha direção. E eu, que achava que tomar banho depois da escola era a coisa mais trivial do mundo! Que jurava que todos os meus colegas faziam o mesmo!
Mas mais do que tudo isso, fico pensando em quantas coisas fazemos até hoje – conosco mesmos e com os outros – só porque “pensamos que é assim”. Quantas atitudes e reações absurdas não temos porque nos naturalizamos com elas? Aquela resposta atravessada, aquela omissão, aquelas renúncias, aquele acesso de riso, aqueles planos... Será que muito de tudo isso não é também algo bizarro?
Isso tudo me lembra o texto É preciso olhar a vida com olhos de criança, do pintor Henri Matisse. Diz ele:
“Ver já um ato criador que exige esforço. Tudo o que vemos, na vida cotidiana, sofre, mais ou menos, a deformação gerada pelos hábitos adquiridos, e o fato é talvez mais sensível em uma época como a nossa, onde cinema, publicidade e periódicos nos inundam diariamente com imagens preconcebidas, que são um pouco, na ordem da visão, o que é o preconceito na ordem da inteligência. O esforço necessário para desembaraçar-se disso exige uma espécie de coragem, e essa coragem é indispensável ao artista, que deve ver tudo como se visse pela primeira vez.”
Penso que devemos levar este jeito artístico de olhar à vida de modo geral. Não digo que devamos perceber tudo como se fosse a primeira vez – porque seria ingênuo e tolo. E também porque perdemos muitos detalhes nas primeiras vezes, porque há sempre algo que nos chama mais a atenção e ofusca os outros elementos. Nos ocupamos demais aprendendo a lidar com o novo, de modo que não podemos aproveitá-lo totalmente. Mas deveríamos procurar encontrar novos aspectos nas experiências, perceber o sol, a chuva, ou um beijo sem o tédio do hábito, e não sempre do mesmo modo simplesmente porque “pensamos que é assim”.

Saturday, September 22, 2007

O resgate da delicadeza


Apenas recentemente assisti ao filme O resgate do soldado Ryan. Tenho resistência a filmes de guerra – assim como a tenho em relação a livros também (dos quais Guerra e Paz entra na minha lista dos mais enfadonhos) –, mas, resolvi dar crédito a Steven Spielberg. E não me arrependi. Spielberg demonstrou extrema habilidade ao retratar o horror e a delicadeza que mesmo no pior dos horrores nunca deixa de brotar. A obra até evocou em minha memória o poema A flor e a náusea, de Drummond, aquele em que um eu lírico amargurado manda o mundo parar porque uma flor furou o asfalto, o nojo e o tédio.

O resgate do soldado Ryan é cinema de verdade. Sim, porque nem todo filme é cinema, assim como nem todo livro é literatura. No filme em questão, a imagem não é apenas um suporte para mostrar personagens em ação. Ela é um instrumento de expressão, assim como o mármore o é para o escultor. Chamou minha atenção a cena em que uma das personagens conta aos demais soldados, durante um raro momento de repouso, que na infância fazia um esforço danado para se manter acordado até a mãe, enfermeira, voltar do trabalho. Contudo, quando ela chegava, ele fingia estar dormindo, ainda que percebesse a presença da mãe na porta de seu quarto, louca de vontade de conversar com o filho e saber como foi seu dia. “Eu não sei porque eu fazia isso”, diz ele emocionado. Vale ressaltar que ele lembra desta história porque um companheiro reclama da falta de sono, ao que este aconselha: “É só tentar não dormir”. De fato, há coisas das quais quanto mais se tenta fugir, mais facilmente com elas se depara.

O que faz desta cena uma cena de cinema são os recursos visuais a que o diretor recorreu para contribuir na construção do seu significado. Enquanto o soldado fala deste seu conflito – ter sono quando se tenta se manter acordado, fingir dormir depois de ter feito um esforço para não dormir –, o ambiente está todo escuro, e algumas velas permitem ao espectador ver apenas as faces das personagens que falam. Praticamente uma tela de Caravaggio. Spielberg foi buscar na arte barroca, a arte das antíteses e do jogo de luz e sombra, um meio de expressar visualmente a ambivalência da personagem – e quem sabe da própria missão de salvar o soldado Ryan e da guerra como um todo.

Mas, foi outra cena que conquistou cadeira cativa na lista das minhas favoritas de todos os filmes a que já assisti. Trata-se daquela em que quatro soldados escutam Edith Piaf em meio a ruínas de um vilarejo da França. Tudo é lindo na cena: a incidência dos raios solares, a disposição simétrica das personagens – com um afastamento do soldado intérprete, porque seu temperamento difere muito mesmo do perfil dos demais –, as ruínas, a vitrola, e, é claro, a tristeza da voz quase inaudível de Piaf.

Para isso serve a arte: para ser um repouso da loucura. Para mostrar através dos sentidos do corpo que este corpo, além de ferramenta de batalha, também é o templo de uma alma capaz de transcendê-lo, mesmo que se seja um estrangeiro em meio a ruínas de um massacre.

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A música de Edith Piaf que faz parte da cena não foi uncluída no álbum da trilha sonora do filme (!!!). Mas ela está no YouTube, no vídeo abaixo:

Saturday, July 21, 2007

Cartas a um velho poeta


Meu caro senhor Rilke,

Estou há tempos lendo, gradativamente, as cartas que enviaste ao jovem poeta Kappus; e as leio em doses homeopáticas porque creio que, como um cálice de bom vinho, devem ser sorvidas aos poucos, para que eu assimile o quanto possa a sabedoria de que o senhor as impregna.

Não posso me furtar, no entanto, de lhe trazer más novas referentes à carta que escreveste em 14 de maio de 1904, quando se encontrava em Roma. Lamento muito, senhor Rilke – e não entenda este lamento como mera figura de retórica, mas como puro sentimento de alguém que se sente profundamente atingida pelo estado das coisas que a seguir vou lhe descrever –, mas suas previsões com relação à mulher e ao amor foram parcialmente equivocadas. E o pior é que o que deu de errado parece que não poderia ter saído pior.

De fato, conforme o senhor profetizou, a mulher conseguiu se desvencilhar de muitas “convenções do exclusivamente feminino”, como o senhor escreve. Porém, esta libertação resultou de uma migração às “convenções do exclusivamente masculino”, se me permite parafraseá-lo, o que, a meu ver, não me parece uma solução, mas a configuração de um novo problema cheio de dramáticos – se não trágicos – desdobramentos.

Se o senhor acreditava, no início do século passado, que a mulher se submetia a sucessivos e ridículos disfarces para purificar sua própria essência das influências deformadoras do sexo masculino, qual não seria sua perplexidade se a visse hoje?! A mulher se deixou deformar mais do que jamais havia permitido em sua época, senhor Rilke. Ela continua passando batom, usando brincos, caminhando sobre sapatos de salto alto e, depois de um período de suspensão cuja duração não posso precisar agora, até voltou a vestir saias. Entretanto, o que se observa é um descompasso entre forma e conteúdo. As mulheres, senhor Rilke, masculinizaram-se. Muitas têm, por exemplo, renunciado à maternidade, e outras tantas que não o fizeram parecem ter tido filhos apenas para cumprir um dever social, recusando-se a dar à luz por parto normal, a amamentar e a outras tarefas próprias do metier. Elementos que antes eram considerados parte de um processo natural são agora evitados ao máximo.

Não as culpo completamente. Há de se levar em consideração o fato de que as últimas gerações de mulheres têm mesmo aprendido que ser homem é melhor do que ser mulher. Desde cedo as menininhas escutam que menstruar, engravidar, parir e amamentar são desvantagens da condição feminina, e o senhor certamente concordará que o que se escuta cedo dificilmente deixa de ecoar até muito tarde. Incutem-lhes a idéia de que ser um desbravador como Ulisses é muito melhor do que esperar como Penélope, como se despertar ao raiar do sol e atravessar o dia até depois do crepúsculo sob a pele de uma mulher não fosse por si só uma odisséia esplêndida em terreno muito acidentado. O senhor compreenderá que quem lhes transmite tais pensamentos são pessoas como as que o senhor descreve na carta do dia 17 de fevereiro, ignorantes demais para perceberem o universo que há dentro de si mesmas.

Também as atitudes da mulher com respeito ao sexo mudaram. Dou-lhes razão no que se refere à sua liberdade de experimentar as sensações que seus corpos podem lhes proporcionar. O problema, senhor Rilke, é que a excessiva disponibilidade das mulheres tornou os homens menos viris. Ao receber uma negativa, o homem não insiste. Não sei o que passa por sua cabeça. Talvez ele pense que ela esteja fingindo desinteresse – e talvez ela esteja mesmo, porque outra coisa que as mulheres ouvem desde cedo é que homens apreciam mulheres difíceis, verdade da qual começo a desconfiar. E talvez ela esteja mesmo desinteressada. Pois, então, o natural seria que ele tentasse fazê-la se interessar! Qual o quê, senhor Rilke?! Há outros milhões de mulheres dizendo “sim” ao primeiro convite, e os homens, que, aí, sim, estão de acordo com o que o senhor afirma na carta do dia 14 de maio (“resolveram tudo da maneira mais fácil e pelo lado mais fácil da facilidade”), optam pelas que dão menos trabalho para satisfazer instantaneamente seus desejos. Em suma, os homens estão sem paciência para convencer, e as mulheres, para serem convencidas. A conquista tem sido uma etapa cada vez mais queimada nos relacionamentos, o que talvez contribua para explicar a fragilidade e brevidade dos mesmos.

De que há exceções, não tenha dúvida. Mas, mesmo nestes casos há problemas. Parece-me que, uma vez encontrando-se diante de mulheres menos disponíveis, os homens julgam estar diante de divindades inatingíveis e, por isso, não ousam ultrapassar a linha do flerte, acreditando que jamais serão acolhidos por elas.

Portanto, meu caríssimo poeta, a mulher transformou-se sim, e esta transformação alterou profundamente a vivência do amor, mas, infelizmente, não do modo como o senhor previa.

Sunday, July 15, 2007

Os caprichos da inspiração

Embora o escasso número de comentários desminta esta informação, este blog é visitado regularmente por um seleto grupo de leitores que costumam reclamar da pouca freqüência com que o atualizo. De fato, não sou blogueira assídua. Tenho assunto de sobra para escrever, mas só isso – acreditava eu – não basta. É preciso inspiração para colocar tantos temas num discurso. Mas mudei de idéia. A inspiração é aquele tipo de amigo que sempre diz que “qualquer dia desses vai aparecer para tomarmos um café”. “Qualquer dia desses” é um dia que nunca chega. Ou quase nunca. Às vezes, o amigo até aparece, mas sempre em horas que ou são inoportunas, ou são breves demais para que possamos lhe dar a merecida atenção. Resolvi que, de agora em diante, vou tomar o café sozinha. Cansei de esperar. E é aí que surge a surpresa.

Quando sento ao computador e começo a escrever, assim, desacompanhada mesmo, sem a presença da amiga tratante, eis que ela surge de mansinho, e aos poucos, vai tomando conta do espaço. Quando a convidamos, ela sempre arranja uma desculpa para sua ausência, ou pior, diz que vai, mas nos deixa esperando. Porém, quando percebe que organizaram uma festa e a deixaram de fora, aí, sim, a inspiração aparece toda prosa, sem o menor constrangimento pela condição de penetra. A inspiração tem os seus caprichos.

Começo a escrever sobre qualquer tema, desgostosa com o estilo insípido, até que a madame aparece e começa a me soprar palavras e expressões que fazia tempo eu não empregava, e à medida que meus dedos vão digitando tais termos, estes vão me trazendo novas idéias não só referentes ao vocabulário, mas ao próprio tema. Em outras palavras, eu tenho um assunto, começo a escrever sobre ele sem saber exatamente que palavras utilizar, e, quando estas surgem, me levam a pensar sob outras perspectivas acerca do determinado assunto.

Confuso? Posso dar um exemplo: me propus agora a escrever sobre a inspiração, mas conforme fui escrevendo os parágrafos acima, já me foi ocorrendo a idéia de que, na verdade, não podemos esperar pela inspiração em nenhum aspecto da vida. Tudo o que precisamos é começar e nos envolver. Vivi isso este ano com uma turma de oitava série para a qual ensino Língua Portuguesa. A turma era danadíssima. Se eu deixasse, os alunos se pendurariam no ventilador do teto. Contudo, não podia desistir da turma – eu não me permitiria tomar uma atitude tão infantil quanto às deles. Fui propondo alguns ajustes, entre os quais apresentar atividades mais dinâmicas, em troca de eles se comprometerem mais com os estudos. Está dando certo. E hoje, acreditem, eu gosto daquelas pestes, a ponto de sentir saudade quando algum feriado cai justamente nos dias em que lhes dou aula. Não sei se eles estão tirando alguma lição comigo além da de ocorrência de crase, mas eu aprendi de modo mais maduro o fato de que, realmente, o amor é uma construção. Não nasce pronto. Exige empenho e paciência. Como se fosse um ser vivo, desenvolve-se no dia-a-dia e modifica-se ao longo do tempo. Às vezes não é mais o que já foi um dia, o que não quer dizer que tenha piorado.

Isso me faz lembrar um diálogo que tive com algumas alunas de outra turma, esta do segundo ano do ensino médio. Uma delas disse que odiou os primeiros capítulos de Memórias póstumas de Brás Cubas, mas que depois começou a gostar. Eu aproveitei a deixa para dizer a toda turma: “Levem isso para a vida de vocês: tudo o que é realmente bom, a gente nunca gosta no começo. Amores à primeira vista, daqueles que nos fazem sentir o coração acelerar e as pernas ficarem bambas, nunca fazem aniversário. Só vão para frente aqueles relacionamentos em que a gente investe só para ver qual é que é”. Todos concordaram.

Utilizei um exemplo próximo da realidade deles, mas poderia usar outros tantos. Eu custei a gostar de cerveja, de vinho seco, de Beatles e de fazer musculação. E os melhores livros que li na minha vida não me cativaram desde a primeira página. Precisamos desconfiar do que nos conquista logo de cara. É como um homem ou uma mulher sedutores: sim, te deixam de quatro no ato, mas não têm consistência para sustentar um relacionamento. Vejam a música pop: é uma delícia, gruda no ouvido. E é uma droga. Um amor de verão sem resistência suficiente para subir a serra.

Mas vim aqui para falar de inspiração, e acabei falando de outras coisas. É que a inspiração é assim mesmo: ela nunca gosta daquilo para o que a convidamos. Entretanto, basta que nos engajemos no processo para ela começar a se interessar – e, assim, a ajudar a tornar tudo mais interessante!

Sunday, July 01, 2007

O legado da nossa riqueza

Estou tendo que trabalhar com Memórias Póstumas de Brás Cubas com minhas turmas de segundo ano. Li este romance anos atrás e, de certa forma, o releio todos os anos, uma vez que tenho que ensiná-lo. Esta é justamente uma das maiores vantagens de se dar aulas de Literatura: tu te obrigas a reler as obras, e é incrível como a cada leitura fazemos uma interpretação diferente.

A mudança que percebi este ano tem relação com a famosa frase final do romance: “não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”. Foi uma excelente medida: Cubas poupou sua prole de ter um pai imbecil! E, muito embora não devamos confundir autor e personagem, o fato de Machado de Assis também não ter tido filhos me leva a pensar que ele concorda com sua criatura. Felizes também dos herdeiros de Machado que poderiam ter sido e não foram. Miséria?! Então é somente isso que a humanidade tem a transmitir? E a arte?! E a ciência?!

Brás Cubas era um chato! E Machado de Assis devia ser também! Odeio pessimistas! O pessimismo é a posição mais confortável para os acomodados: ela os isenta do esforço para mudar alguma coisa. E nem é preciso muito esforço para fazer a vida valer a pena: se Machado de Assis tivesse dançado ao som de Dancing Queen num salão com um globo de espelhos girando no centro do teto, jamais escreveria uma bobagem dessas!

Existem milhões de razões para se celebrar a vida. Milhões de pequenos momentos que por si só já teriam justificado nossa passagem na Terra. Posso enumerar os meus:

1) assistir a um espetáculo de ballet ao som do Bolero de Ravel. Eu tinha 8 anos de idade e, pelo que me lembro, foi a primeira vez em que senti êxtase, a primeira vez em que senti o que anos depois eu descobriria que Kant chamou de sublime. Aliás, o Bolero de Ravel sem coreografia já é sublime;

2) A propósito, há várias músicas que ouvidas uma única vez já seriam mais do que suficientes para morrermos felizes: Eleanor Rigby (ai, aquele coral de vozes!...), Come together (ai, aquela guitarra do refrão!...), Tomorrow never knows (AI, O SOLO INVERTIDO DA GUITARRA DO GEORGE HARRISON!!!), Miss you (alguém consegue escutar sua introdução sem pensar em sacanagem?!), Can’t been seen, Moonlight drive, Try a little tenderness, Don’t stop me now, The song remains the same... Vamos parar por aqui, senão a lista não terminará!;

3) Chorar de rir com meu amigos naqueles momentos em que me perguntei por que me mato tanto fazendo abdominais na academia, se é muito mais gostoso me matar de tanto gargalhar;

4) Perder o fôlego olhando o pôr-do-sol do Guaíba – há quem diga que há crepúsculos mais belos em outras paragens, mas como diz Fernando Pessoa, “O Tejo é mais belo que o rio da minha aldeia, mas o Tejo não é mais belo que o rio da minha aldeia, porque ele não é o rio da minha aldeia...” ; ) – ao som de Insensatez no saxofone;

5) Beijar na boca;

6) Estar bem por baixo e, depois, encontrar-se bem por cima, olhar para trás e perceber que consegui superar o obstáculo tão aparentemente intransponível;

7) Dar colo ao meu sobrinho quando ele teve medo do tubarão do Procurando Nemo – a doce sensação de proteger...

8) ...e ter a dulcíssima sensação de ser protegida, é claro!

9) Sentir dor, prazer e beleza em doses extremas – a indescritível sensação de estar vivo...

10) A vida, em suma, é MARAVILHOSA, e eu quero, sim, transmitir a algumas criaturas o legado dessa riqueza, mostrar-lhes músicas, poemas, telas, pessoas, vinhos, cerveja, árvores, mares, e dizer-lhes: "olhem, meus filhos, isso tudo é de vocês!"

O engraçado é que eu nunca havia pensado nisso nas outras vezes em que li o romance em questão. Taí: reler livros e rever filmes são ótimos termômetros para mensurar nosso crescimento espiritual, já que o valor do objeto avaliado depende do valor de quem o avalia. Pode ser que tu vejas o mesmo filme centenas de vezes e não sintas nada de diferente. Mau sinal: não evoluíste! Reler um livro é mais ou menos como voltar à sala de aula em que cursamos a pré-escola. Nesta situação, sempre nos admiramos “Nossa, parecia tão grande naquela época!”. Mas não era. A sala continua a mesma. Nós é que crescemos. No caso da leitura, pensamos “Nossa, eu não lembrava que era tão bom!” Ou tão ruim, sei lá.

E não era.

Nós é que crescemos.

; )

Wednesday, May 30, 2007

Edição revista e ampliada das dores passadas

Dias atrás um amigo comentava que sua atual esposa tem ciúme mortal da mulher com quem ele esteve envolvido pouco antes de conhecê-la. Eu então lhe perguntei se esta mulher também não tinha ciúme em relação à moça com quem ele teve um romance logo após o fim de seu primeiro casamento. Ele, que nem havia percebido a coincidência, confirmou. De fato, aquela que hoje é motivo de ciúme também já esteve na posição de ciumenta. Definitivamente, este amigo vive se metendo nesta mesma situação: uma atual que morre de ciúme da ex. E é por isso que eu sempre digo: a tendência é repetir!

E tendemos a repetir porque o desejo é um filho da mãe! Quanto mais tentamos fugir dele, mais dele nos aproximamos. Damos de cara com ele na cozinha, e saímos em disparada em direção ao quarto, topando em todos os móveis, derrubando o abajur, batendo o dedinho do pé na perna da mesa, mas tão logo entramos no quarto e fechamos a porta, qual não é a nossa surpresa quando o vemos esplendidamente deitado na cama, com sorriso sarcástico e olhar astuto: o desejo! Este bandido!

Não adianta correr em direção oposta à dele. O desejo é onipresente. Está em todos os lugares, aproveitando todas as brechas para se manifestar. Às vezes as manifestações são discretas, mas outras são cheias de espalhafato, nos fazendo perder o controle. É como se ele dissesse: “isso é só para você ver quem é que manda!”. O desejo é um déspota!

Suponhamos que um rapaz tenha uma namorada cuja característica mais marcante seja a chatice. A moça é chata. Vive reclamando que ele é pobre, que seu carro tem design ultrapassado e faz um barulho constrangedor, que ele nunca a leva para jantar em restaurantes bacanas, e que ela já está cansada de enterrar o seu verão em uma casa desconfortável em Noiva do Mar. “Ninguém merece Noiva do Mar”, é o que ela sempre diz. Em suma, chata.

O cara enche o saco e resolve mudar de vida. Larga a moça e jura para si que de agora em diante só vai se envolver com mulheres independentes, que tenham seu próprio dinheiro, que não lhe exijam despesas astronômicas. “Quer jantar em restaurante caro, pague você, eu não tenho dinheiro!” E como quem procura, acha, o cara encontra exatamente uma mulher como esta. É tudo o que ele sempre quis desde que se livrou daquela mala. A atual quer sempre se vestir bem, dirigir bons carros e freqüentar os melhores restaurantes da cidade, mas ela faz isso com seu próprio dinheiro. E o que é melhor: acha isso o máximo. Detestaria depender de homem. Ela enche a boca para dizer que tudo o que ela tem, tem com o suor do próprio rostinho.

Mas com o tempo ela começa a se incomodar com o modo como ele se veste, com seu corte de cabelo e até com alguns de seus deslizes na norma culta da língua portuguesa. E uma mulher incomodada é uma mulher incômoda. Em pouco tempo, ela já está diariamente lhe apontando – ou criando – defeitos. Bingo! O cara está com outra chata. Coincidência? Carma? Destino? Não, desejo! O desejo sempre nos faz ler as mesas histórias, só que em reedições dramaticamente revistas e ampliadas. No caso do personagem em questão, por alguma razão, ele gosta de mulheres que passem o tempo todo lhe fazendo cobranças. Ele se aborrece, é verdade, mas nem se dá conta de que na verdade seu gozo está justamente neste aborrecer-se, nesta angústia de não corresponder às expectativas da amada. O seu desejo é ficar devendo. O desejo, este tirano!

Não adianta se rebelar contra o desejo. A rebeldia só machuca – como quando se corre da cozinha para o quarto. Debater-se contra o desejo é inútil – sem contar que resulta em cenas patéticas. Mas podemos negociar com o desejo. É possível deixar de ser seu escravo. Mas essa negociação é longa e dolorosa – o desejo é um osso duro de roer! Ele exige muita paciência – e diplomacia. Mas o processo de dominá-lo também pode ser fascinante. Depois de tanto se alfinetar com ele, não há nada melhor do que mostrar-lhe quem, afinal, é que manda!

Sunday, May 20, 2007

Prazer doloroso

Cada um com suas esquisitices: às vezes, eu tenho saudade de algumas passagens de romances, contos ou poemas que já li. Estava agora mesmo ouvindo uma música lindíssima da Barbara Lewis, Hello stranger, que fez eu correr para minha estante de livros e procurar uma passagem de Vida e época de Michael K, do sul-africano JM Coetzee (a vantagem de se ter os livros em casa, ao invés de pegá-los emprestados de amigos ou bibliotecas). Não foi difícil encontrar a passagem, pois tenho com meus livros favoritos a mesma intimidade que tenho com as pessoas por quem nutro grande estima. E a passagem estava sublinhada. Sinal de que eu já tinha gostado dela quando li a obra quatro anos atrás.

A passagem se refere ao momento em que o protagonista, depois de um longo período comendo grama, e às vezes passando fome mesmo, come a primeira fatia de abóbora que plantou em uma fazenda abandonada:

“Levou a primeira fatia até a boca. Debaixo da pele crocante e torrada, a carne era macia e suculenta. Mastigou com lágrimas de alegria nos olhos. A melhor, pensou, a melhor abóbora que eu comi na vida. Pela primeira vez, desde que voltara para o campo, teve prazer com a comida. O sabor da primeira fatia deixou sua boca dolorosa de prazer sensual”

Dolorosa de prazer sensual. Foi mais precisamente esta expressão que fez com que eu lembrasse da passagem escutando Barbara Lewis. Sua voz, ao menos na canção mencionada, deixa meus ouvidos dolorosos de prazer sensual. Seu timbre e melodia são tão delicada e sofisticadamente belos, que cada segundo passado da canção me causa prazer, mas também tristeza, porque é um segundo a menos, um passo a mais rumo ao fim.

Isso me lembra aquele meu post sobre A felicidade clandestina, da Clarice Lispector. De novo volto a falar sobre o preço exigido pelo que é bom para que o apreciemos. É preciso muita coragem para desfrutarmos da felicidade, muita maturidade para sabermos lidar com a tristeza de quando ela acabar – a parte dolorosa do prazer.

Palavra final

Resolvi fazer para mim mesma as perguntas da seção Palavra Final, da revista Época:

O que não vale a pena?
Discutir com gente burra.

Maior mentira que já contou...
Não lembro de nenhuma grande mentira que eu tenha contado.

Um lugar especial na Terra...
Minha casa, sem dúvida!
E a praia de Santo Antônio de Lisboa, em Florianópolis.

Uma mulher interessante...
Quase todas, com poucas exceções.

Um homem interessante...
Oscar Niemeyer,
O meu amigo Cleber

Qual é o seu lema?
Mesmo nas piores situações há pontos de que se pode tirar proveito.

Um dia perfeito...
Um dia de sol em que eu consiga fazer tudo o que eu tenha planejado no dia anterior.

Sua qualidade mais marcante...
A minha disposição para ouvir, talvez.

De quem você tem inveja?
No momento, de ninguém.

Na pele de quem você gostaria de passar um dia?
De uma águia, para voar, voar, voar...

Quem é a pessoa viva que você mais admira?
No momento, minha colega Valéria. Ela tem 58 horas-aula por semana, planeja aulas criativas, faz exercícios físicos regularmente e ainda é boa mãe: sou professora do filho mais velho dela e posso afirmar que o garoto é ótimo!

Sua maior extravagância...
Fazer terapia.

Qual é o seu preço?
Eu não tenho preço, mas a minha hora-aula particular tem. É baratinho, deixa um comentário, podemos negociar!

De que você tem orgulho?
De já estar completando dois anos no meu emprego! Da relação que tenho com meus alunos. De um dia em que um aluno que era líder de turma resistiu a participar de uma reunião só porque ela aconteceria bem na hora da minha aula (disso eu vou lembrar até no meu leito de morte!).

De que você mais sente falta?
No momento, de dinheiro! Ainda bem que é disso. Podia ser de algo ainda mais imprescindível, como saúde ou ânimo.

Para você, o que é felicidade?
O próprio processo de construção da felicidade, que vem a ser a busca por preencher algumas lacunas. Sem lacuna, ninguém é feliz. É morto.

O que você compra sempre?
Comida. Não sou consumista.

Se ganhasse poderes sobrenaturais por um dia, qual seria sua primeira ação?
Ficar com um corpão, hahaha!

O que você gostaria de ouvir de Deus ao chegar ao céu?
Pode voltar lá e aproveitar mais uns minutinhos.

Thursday, April 26, 2007

Iceberg



O que é isto?
Um iceberg
Diriam os céticos
Uma fotografia de um iceberg
Diriam os puristas
Uma metáfora,
Diria eu,
Da obra de arte
Do amor
Do ódio
Da inveja
Do ciúme
Do desejo de agradar
Do medo da rejeição
Da sua auto-sabotagem
Da sua vontade de desistir justo agora que está tão perto de alcançar
Do seu desinteresse pelo que conseguiu alcançar depois de almejar tanto
Da sua coragem
Da sua determinação de aço
Dessa generosidade incomum
De tanta magnanimidade
Desse interesse repentino pelo que até ontem era indiferente
Do seu consumismo
Da sua avareza
Da sua preguiça
Da sua gula
Da sua gordura
Da sua obsessão por ficar belo
Da sua curiosidade
Da sua elegância
Do seu vocabulário chulo
Dos seus hábitos bizarros
Do seu desejo por quem não deveria desejar
Da sua atração irresistível justamente pelo que mais lhe causa repulsa

Da religião
Da ciência
Da política
Do racismo
Do machismo
Do feminismo
Da social-democracia
Do preço da gasolina
Do estado das coisas

E, é claro,
Sobretudo
De ti,
Dele,
Deles,
De mim.

Conversa de botequim


Dias atrás, numa edição já passada do jornal Zero Hora que me caiu nas mãos, li a coluna da Martha Medeiros. Dizia ela que queria participar do Big Brother, e em seguida enumerava suas razões, entre as quais ficar isolada dos problemas do mundo, sem telefone, televisão, internet, notícias indigestas, etc, e conviver com um bando de descerebrados. Para ela, todos os participantes são descerebrados. E têm a favor de si a grande vantagem de não saber quem é João Hélio, de quem só terão conhecimento daqui um ano, quando lerem uma notinha acerca do aniversário funesto no jornal, se é que lêem jornal, “me permitam o otimismo”. Foi o que ela escreveu: “me permitam o otimismo”.

A insinuação de que ela considera pouco inteligentes os participantes deste programa me parece clara. E, posso estar errada, mas quando ela os chama de descerebrados, me parece que, a seu ver, ela, sim, é cerebrada. Ou seja, ela é inteligente, eles são burros. Simples assim.

A pergunta que não quer calar é: qual será o conceito de inteligência da “inteligente” Martha Medeiros? A impressão que dá é que, para ela, ser inteligente é ter aquele tradicional hábito de pensar como homem, rico, branco, judaico-cristão e ocidental. Qualquer pensamento inclinado ao modo oriental, não-cristão, não-branco, pobre e feminino não é um pensamento diferente, é um pensamento burro. Logo, os big brothers só seriam considerados inteligentes se discutissem aquilo que o establishment julga ser inteligente. Mas eles não discutem. E nem devem conhecer Martha Medeiros. Se me permitem o otimismo.

Martha Medeiros é típica intelectual de classe média brasileira, que pensa como todo o mundo da sua classe e cor pensa. Mas o mundo não é só a classe média, dona Martha! Nem só o Moinhos de Vento. Existe muito mais para além das fronteiras dos bairros elegantes da provinciana Porto Alegre. Existe um público que lê Diário Gaúcho, que aliás pertence ao mesmo grupo do jornal para o qual a senhora escreve os seus textos cerebrados. E não há um motivo sequer que permita que eu, a senhora ou qualquer outro “cerebrado” que lê Shakespeare e assiste a Fellini nos consideremos superiores a tal público. E sabe por quê? Porque toda o nosso conhecimento de Shakespeare e Fellini não conseguiu impedir a morte de João Hélio, para citar o mesmo episódio a que a senhora recorre na sua coluna.

Nossa erudição não serviu para nada. E não tem de servir mesmo. Ela não é uma ferramenta para ter um uso. Ela é apenas a expressão de um ponto de vista, assim como a preferência de alguns pelo Diário Gaúcho é a expressão de outro. Os programas favoritos desse público não acrescentam nada à nossa cultura, é o que dizem seus detratores. Mas os nossos, também não! Assistir a uma entrevista com Chico Buarque é um deleite, porque ele diz coisas inteligentes. Mas isso não muda nada. No dia seguinte, vão continuar incendiando ônibus.

Quer saber um exemplo de alguém que realmente acrescentou alguma coisa à nossa cultura? Rosa Parks. Um dia, um homem branco entrou num coletivo e, como era praxe entre os brancos na época, pediu à negra Rosa que se levantasse para dar lugar a ele. Rosa olhou para ele e voltou a cabeça para a janela. Não levantou. Criou celeuma. Talvez não no mesmo dia, talvez não naquela semana, mas graças a Rosa, os negros americanos não precisaram mais passar pela humilhação de ter de se levantar para dar lugar a um branco. Rosa era mulher, pobre e negra. Não preenchia mais da metade daqueles cinco requisitos básicos para ser considerada inteligente no mundo ocidental. Mas ela, sim, mudou alguma coisa, e sem dizer uma palavra, muito menos de um vocabulário erudito! Isto provoca mudanças: gestos! O resto é conversa de botequim!

Sunday, April 22, 2007

Recuo

Esses passos para trás
não são um retrocesso.
São apenas
o recuo
necessário
para o impulso
para o grande salto